E quando a tradução não está lá essas coisas?

Uma das atividades mais antigas do mundo, tirando aquela que é mais antiga ainda, é a tradução. Se pensarmos na história da Torre de Babel: Deus, fulo da vida por que a torrinha estava subindo, estalou os dedos e fez cada um falar uma língua diferente para que ninguém mais se entendesse.

Como negociar sempre foi do homem, certamente os primeiros a sair da torre já estavam aprendendo como se comunicar com os que vinham a seguir. Talvez para vender água, cerveja e amendoim aos que desceram por último. E tradução também é negociação.

Traduttore, traditore: não use, por favor

David Bellos, autor do livro Is That a Fish in Your Ear? – Translation and The Meaning of Everything, ainda sem tradução para o português (clique aqui para a versão em inglês), destaca que a velha, gasta, antiquada e, ao meu ver, ridícula máxima da tradução, traduttore/traditore (tradutores/traidores), remonta lá ao século XIII, no Império Otomano, quando os dragomanos (intérpretes e tradutores comerciais) faziam o meio de campo entre comerciantes italianos e nobres otomanos e atenuavam as negociações, que em geral continham muitos impropérios de todos os lados.

Acrescentar alguns parágrafos de devoção eterna não era má tradução. Era um seguro de vida.

Como comenta Bellos no capítulo dedicado à tradução oral: “Para que dobrar o risco deixando de abordar os poderosos locais com o servilismo floreado ao qual estavam acostumados? Acrescentar alguns parágrafos de devoção eterna não era má tradução. Era um seguro de vida”.

Ou seja, os tradutores de obras escritas – que estavam lá, quietinhos, junto aos escribas, fazendo suas traduções na tranquilidade – acabaram levando a fama sem sequer chegar perto da cama. E com essa anedota marota chegamos à questão da visibilidade do tradutor, da qual falaremos algumas vezes por aqui.

Ah, essa autora é demais

Situação 1: você pega aquele livro que todo mundo comenta que é maravilhoso. Mergulha na leitura. Se delicia, se refestela, ama, lê um pouco mais devagar para o livro não acabar. Quando chega à última página, dá aquele suspiro e diz: “Nossa, essa autora é demais. Que maravilhosa. Que estilo! As metáforas tão bem elaboradas, a fluidez do texto. Vou ler mais coisas dessa italiana, viu?”.

Situação 2: você pega aquele livro que alguém comentou que é bacana. Entra na leitura, mas sente algum estranhamento. O texto não flui, é travado, meio desconjuntado. Você lê rápido para pegar o próximo livro maravilhoso da italiana, e não abandona o livro ruim porque, oras, você não é do tipo que abandona livros. Quando chega à última página, dá aquela bufada e diz: “Nossa, que tradutor ruim. Nunca mais leio nada dessa editora. Como dão um texto desse pra um zé-mané traduzir? Credo, vou ler a italiana que ganho mais”.

Percebem a diferença? Quando o livro é maravilhoso, fluido, perfeito, sem sobressaltos, a autora ou o autor leva todos os louros e o tradutor é automaticamente esquecido. Inevitável, claro, pois o livro é dela, a ideia é dele, a fama, o nome, tudo é de quem escreveu o livro.

Mas e quando a tradução não está lá essas coisas?

Quando o livro falha, quando há um problema de texto, a culpa, claro, é do tradutor. E somente dele. O texto maravilhoso do autor é do autor. O texto capenga do autor é do tradutor.

Não estamos querendo confete não, é apenas nosso trabalho.

Em geral, quem lê apenas o texto em português só se lembra do tradutor quando o texto é ruim. E também é óbvio, pois aquele texto foi recriado em português, existe em português porque uma tradutora/um tradutor trabalhou nele.

E por isso precisamos lembrar: tudo é do autor, menos o texto em português. E ao mesmo tempo é. Esse é um dos paradoxos da tradução, do qual falaremos no próximo post.

Que tal se elogiássemos a tradução também quando um livro impressionar? Não estamos querendo confete não, é apenas nosso trabalho.

Mas um pouco de reconhecimento não faz mal a ninguém.

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Este foi o primeiro de uma série de textos que publicaremos aqui n’A Escotilha sobre questões de tradução, visibilidade, mercado e formação de tradutores. Espero que gostem e que seja útil para trazer um pouco mais desse mundo em que a tônica maior é a diversidade.

Post originalmente publicado em A Escotilha.

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