A aprendizagem de idiomas e a tecnologia

Em 2015, saiu uma matéria n’O Globo com opinião de especialistas (e leigos) sobre aplicativos de tradução automática , tanto no celular como no computador, e a diminuição no interesse no aprendizado de idiomas (leia aqui). Vários colegas e amigos deram suas opiniões na matéria, que teve como foco principal o uso comercial e/ou turístico do idioma, de um lado, e o uso profissional/acadêmico de outro. Há uma zona cinzenta aí no meio, que é a do aprendizado em si, que ao meu ver não foi contemplada a contento.

Todo mundo pode escrever. E todo mundo pode escrever um romance. Mas existe um abismo grande que separa quem pode escrever um romance razoável – e até mesmo já escreveu – dos poucos que vivem de sua escrita de forma decente.

É uma porta de entrada para todos os mercados

Quando fui aprender meu segundo idioma estrangeiro, o alemão, esse fato ficou ainda mais claro. No meu aprendizado da língua inglesa (tortuoso, com todas as suas imperfeições e problemas) , eu tinha a meu favor o fato de o Brasil ser um país bastante receptivo a tradições, costumes e elementos culturais dos Estados Unidos. Por mais que alguém não queira, em um momento ou outro vai se deparar com delivery, sale ou rent-a-car. As músicas, os filmes, os quadrinhos, as reportagens, desenhos animados e outros chegam a nós em inglês: tive várias surpresas de “covers” e “remakes” americanos de filmes alemães, franceses, italianos. Existir em inglês é uma porta de entrada para todos os mercados.

Já quando mergulhei no idioma alemão, percebi que no início me faltava muita vivência cultural para deslanchar naquele idioma tão rico e complexo. Fui atrás de referências, vivências, leituras, filmes, música, desenhos animados, enfim, de uma infinidade de recursos que me permitiram compreender melhor aquele novo mundo que se abria. Pois eu não encontraria Lieferung, Aktion ou Leihwagen com tanta facilidade pelas ruas de São Paulo. E quando visitei a Alemanha, depois de anos estudando o idioma e a cultura de forma ensandecida, não me senti totalmente alheio, foi como reencontrar um velho conhecido de quem não ouvia falar há muito: não era tudo igual, mas muito daquela cultura, daqueles comportamentos, palavras e atos, já estavam de alguma forma alojados na minha cabeça.

A curiosidade humana não tem limites.

Entendo que muita gente tenha um interesse apenas pontual por um idioma  (não vou aprender vietnamita para visitar o Vietnã) , mas aprender um idioma é sempre válido. A maioria das pessoas vai, em algum momento, aprender uma quantidade razoável de inglês, se não para se comunicar realmente, para se virar em situações cotidianas, como pedir uma comida ou receber instruções básicas. Algumas pessoas vão aprender espanhol, pela proximidade,  muitas vezes enganosa, com o português ou por uma necessidade da firma. Outras se encantarão com um idioma menos comum, como o italiano ou o francês, mesmo sem ter um uso real para ele. Ainda outros poucos, como eu, enlouquecerão e resolverão aprender alemão, sueco, norueguês. E aí, insanidade total, vêm os idiomas mais a leste, o árabe (que eu já tentei), o russo, o mandarim e por aí vai. A curiosidade humana não tem limites. Mas, seja qual for o motivo, aprender um idioma é sempre abraçar um mundo muito diferente daquele que você conhece, aprender costumes, muitas vezes o modus operandi do povo, não apenas da língua, obras literárias, enfim, aumentar as possibilidades de crescimento pessoal.

Por isso acredito que as pessoas, mesmo com a facilidade das traduções automáticas, que podem um dia servir para coisas bastante pontuais com cada vez mais precisão, não deixarão de aprender idiomas. Talvez partam para outro idiomas que não os hegemônicos, mas sempre terá gente querendo aprender uma nova língua e apreender o mundo de uma maneira bastante diversa. Cada língua que a gente aprende é um novo universo que se abre.

Publicado originalmente no Medium.

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