Adeus, livro

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É estranha essa sensação do adeus a um livro.

Traduzir é um pouco como viver a primeira metade da vida. Você se esforça, se esfalfa, se chateia muito, tem preguiça a perder de vista, muitas vezes quer largar tudo, jogar o mundo para o alto e correr para a próxima aventura, mas precisa terminar antes, botar pingos dos iis, as vírgulas nos lugares certos e o ponto final antes de dar o próximo passo. Revisar uma tradução parece mais como a segunda metade, na qual é inevitável olhar para trás e passar a limpo, ao menos mentalmente, tudo o que fizemos naquela primeira parte da existência, tentando corrigir algumas coisas, apreciando o que foi bem feito, tentando superar aquilo que não tem jeito.

Estou agora neste momento de encerramento de mais uma tradução, na parte da revisão. Tenho por costume traduzir o livro inteirinho e depois tirar um tempo para a revisão integral do conteúdo. É tempo de encontrar os meus fantasmas, os sacis do Lobato, os enganos, os erros de digitação, as bobagens escritas e impensadas, os trocadilhos a resolver e os bem-resolvidos, as firulas desnecessárias, o mar de pronomes supérfluos, de entãos e enquantos, tudo em profusão, tudo uma confusão que, neste momento, precisa ser ordenada. E também o momento de rever personagens queridas, me reconciliar com as nem tão queridas, dar o corpo e a voz corretos para aqueles que povoarão as páginas impressas meses depois.

E sempre fica a saudade. Elegemos os personagens preferidos, exorcizamos os detestáveis, e nem sempre o protagonista é quem nos marca. No livro que estou despachando hoje, a irmã surda de 6 anos da personagem principal será a que mais ficará na minha lembrança, por suas tiradas impagáveis e seu jeitinho todo criança. Quando me perguntarem sobre o livro, com certeza falarei: “Esta personagem valeu pelo livro todo”. E, depois do adeus, mergulhamos no próximo, que abre sempre um novo mundo, uma nova possibilidade de enxergá-lo. Inaugura uma nova caminhada.

1 Comentário Adeus, livro

  1. Geraldo Luiz Zibetti 1 de janeiro de 2014 at 22:05

    Seu texto é muito bom. Importante para que se saiba o que passa pela mente do tradutor.

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