Nossos arroubos

 

Todos temos nossos arroubos escrevinhadores um dia. Toda criança apaixonada faz seus versinhos para o amor platônico, aquele que nunca será por um motivo ou outro. Seja porque o alvo dos anseios é muito mais velho, ou muito popular – ou mesmo pela amizade, que é muito grande. Toda criança que toma posse da escrita sente a necessidade de imprimir o mundo em folhas e folhas de cadernos e diários. Nesses arroubos, é lançada dentro de nós uma sementinha maléfica, mas muito delicada. Precisa ser alimentada com frequência e em quantidades aparentemente infinitas, do contrário ela não germina, fica por vingar. Acontece com a maioria feliz dos seres humanos que essa semente não vingue, não dê frutos, permaneça adormecida, uma lembrança feliz dos tempos de outrora.

Porém, para algumas pessoas, essa semente brota violenta no peito desde muito cedo. Ou mesmo tarde, como um fruto clandestino da árvore proibida.

Trabalho com a escrita há muitos anos. Ela é meu ganha pão, meu sustento. Quando era mais novo, não era dado a leituras, não fui o menino que tinha a cara enfiada nos livros, que perdia dias e dias escarafunchando páginas. Mas lia enciclopédias. Enlouquecidamente. Talvez por ser um dos poucos livros da casa, talvez por eu ter sede de conhecer tudo. Aliás, era o nome da enciclopédia, Tudo, de capa azul com toque de couro que sinto nos dedos até hoje. Mas também fiz outras coisas: pintura, desenho, teatro, dança. Ninguém sabia ao certo o que eu seria, a que eu acabaria me dedicando.

E a escrita falou mais alto, frustrando todas as outras expectativas. Claro que muitas pessoas tinham expectativas das mais diversas, meus pais, tios. E quando comecei a trabalhar com as palavras, muitos me olharam meio assim, não sabiam – e muitos até hoje não sabem – o que eu faço. Por que eu fico em casa e não saio para trabalhar, por que não tenho carteira assinada, por que não tiro férias como todo mundo?

E de palavra em palavra, de frase em frase, pari meu primeiro livro. Primeiro e único até agora. Não sei se haverá outro, mas deve haver. Perdido dentro de mim, só preciso encontrar. Só preciso parar para descobrir seu início, meio e fim, seus personagens e cenários, seus dramas e suas comédias. Por enquanto, me aventuro nos livros alheios, reescrevendo-os para que se façam entender em português, por isso que talvez eu não sinta tanta falta da minha escrita, pois escrevo para o outro e pelo outro, e isso me traz um alento. Que não vire uma escora esse alento, e que logo eu desperte novamente para as minhas palavras.

E, de devaneio em devaneio, aproveito para agradecer àqueles que sabem que escrever não é um vício.

É uma necessidade.

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