Sentir a tradução

Foto da Deutschlandradio.de - Kultur (http://www.dradio.de/dkultur/sendungen/thema/1149150/)Agora que já está publicado, posso falar sobre um dos livros que traduzi no início deste ano, mas não com o intuito de fazer um jabá básico, mas para comentar algo que todos os tradutores devem sentir em maior ou menor medida durante a tradução. Não é sono, nem tédio, nem cansaço, coisas normais durante textos mais longos como um livro. Mas aquele envolvimento que a gente nunca imagina quando inicia uma nova empreitada dessas, que pode envolver diversos sentimentos: raiva, tristeza, ódio, alegria… mais uma loucura das nossas aventuras tradutórias.
Posso dizer que me diverti muito ao traduzir Sincero – a história real e bem-humorada de um homem que tentou viver sem mentir (Verus Editora), do jornalista alemão Jürgen Schmieder. Este livro caiu nas minhas mãos quase por acaso, após eu ter declinado por conta do prazo (sempre ele, merece um post no futuro) um outro livro. Eis que o retorno da minha recusa foi este livro divertidíssimo pela mesma editora, o que vejo hoje como uma troca muito feliz. Quando li o índice do livro já tive a primeira certeza: vou rir com este livro. E não deu outra, me peguei muitas vezes gargalhando entre uma frase e outra, entre uma história e outra desse jornalista maluco que resolveu passar a quaresma sendo sincero com tudo e com todos, doesse a quem doesse. Vivi com esse cara durante uns três meses, enlouquecido com outro alemão (o Domscheit-Berg, do Wikileaks), e compartilhei meu texto com ele para que o cara falasse em português de suas desventuras engraçadas.
Mas também me emocionei, claro. Não vou dar uma de spoiler aqui, mas há um trecho que com certeza vai deixar quem lê-lo incomodado. E quando me peguei emocionado, traduzindo com aquela dorzinha no coração, lembrei de uma palestra da profa. Viviane Veras no V CIATI, na qual ela comentou sobre intérpretes que precisavam fazer intermediações entre criminosos e vítimas em guerras africanas. Não há maneira de ser imparcial num caso desses, em quase nenhum caso no qual as palavras, sentimentos e ações passam pelo crivo de nosso cérebro. Ou seja, tradução é antes de mais nada interpretação na maior parte das vezes (se não sempre) e nós estamos ali, a cada palavrinha pensada, refletida e processada, até o texto final.
Acredito que por isso dê aquela pontinha boba de orgulho quando vemos o livrinho nas prateleiras das livrarias…

8 Comentários Sentir a tradução

  1. denise bottmann 22 de junho de 2011 at 21:12

    que legal, parabéns – deve ter sido um barato. e tem isso mesmo de sentir a coisa, né? quando traduzi o quem escreverá nossa história?, sobre o gueto de varsóvia, passei uma semana quase sem dormir.
    mas esse deve ser bem mais divertido, e aí é bom!
    parabéns de novo. uma hora põe a capa dele aqui pra gente ver…

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    1. Petê Rissatti 22 de junho de 2011 at 21:19

      Oi Denise,

      Vou botar a capa já. Ela já está no meu currículo, mas vou botar no post. 😉

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  2. Martha Gouveia da Cruz 27 de junho de 2011 at 20:10

    Que interessante, Petê.
    Sabe que deu vontade de ler o livro?
    Também já me emocionei algumas vezes traduzindo livros. Mas no domingo retrasado, durante a interpretação de um workshop, me vi com a voz embargada diante do relato de uma das participantes. Isso nunca tinha acontecido, nem mesmo quando fiz a interpretação de sessões de psicoterapia em Nova Iorque. Desta vez foi um sufuco para fazer a voz sair “normal”.
    Parabéns por mais este livro traduzido. Que você tenha muito sucesso com suas traduções. E pode se orgulhar à vontade, seus textos são muito bons. 🙂

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    1. Petê Rissatti 27 de junho de 2011 at 23:57

      Oi Martha,

      Costumo fazer isso com livros alheios, deixar os leitores do blog com vontade de ler. Aproveitei e experimentei com um livrinho traduzido por mim e não é que deu certo!
      Obrigado pelos comentários, se ler o livro, me diga o que achou. Sempre é muito importante ouvir os colegas mais experientes.
      Beijo grande.

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  3. Marcia 18 de agosto de 2011 at 15:35

    Parabéns pela tradução desse livro, estou lendo e me divertindo muito. Quem ainda não leu aproveite, ele é ótimo, recomendo. Também sou tradutora (não literária), mas técnica, inglês e espanhol.

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    1. Petê Rissatti 18 de agosto de 2011 at 17:02

      Oi Marcia,

      Que bom que está se divertindo com a leitura. A tradução foi muito divertida também e emocionante (se prepare para o finalzinho).
      Obrigado pela visita e recomende para seus amigos. 😉

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  4. Fábio 19 de agosto de 2011 at 21:28

    Ola, Rissati, qual é o titulo original do livro? tem disponivel para download em alemão?
    Ou voce nao sabe?

    Obrigado

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    1. Petê Rissatti 20 de agosto de 2011 at 11:41

      Ele se chama “Du sollst nicht lügen” em alemão. Não sei se há para download.

      Obrigado pela visita.

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