Um dos meus incômodos cotidianos – e depois de certa idade eles são mais que frequentes – é a falta de tempo para exercer meu lado escritor e ter uma constância nas minhas criações literárias ou mesmo de não ficção. Tenho um livro lançado em 2012 chamado Réquiem – Sonhos proibidos, uma aposta da Editora Terracota na minha distopia; depois, no mesmo universo, tenho lançado na coletânea Raízes do amanhã: 8 contos afrofuturistas o conto “Segunda mão”. Também comecei um livro sobre tradução, uma espécie de longo ensaio para iniciantes na profissão, esse ainda preso no meu computador. Outro ainda, uma ficção infantojuvenil, em que lido com os orixás. Tudo isso bem começado, mas nunca levado adiante.
Nunca desisti da escrita, mas estava longe demais da realidade de poder escrever, botar a mão na massa de verdade e desenvolver mais algum projeto antes de levar adiante o que já tinha pronto; na semana passada, meu marido até me cutucou, dizendo que eu deveria voltar a escrever com frequência e usar uma história que já estava quicando na minha frente desde muito tempo, mas que eu ainda não tinha tido tempo – ou coragem? – de enfrentar. E depois de um feliz encontro com uma amiga escritora e sua mulher, uma leitora ávida, cheguei a uma pequena explosão, um chacoalhão mesmo nos miolos, e, ao que parece, a tal trava que me impedia de levar adiante os livros que comecei foi suspensa. Não sei se temporariamente ou para sempre, mas ela desapareceu, e estou conseguindo escrever. Agora, preciso transformar isso em rotina.
Dizem que para iniciar ou largar um hábito, são necessários 21 dias ininterruptos. Parar de fumar, ir à academia, ler, todas essas atividades são hábitos que precisam ser incorporados ao nosso dia a dia como tomar banho, comer ou dormir. Luto para voltar à academia e ler livros que não tenham a ver com a minha rotina de tradutor, mas estou fracassando nesse lado. Por outro lado, parei de fumar e, agora, volto com tudo à escrita. Uma coisa por vez, uma pequena vitória a ser comemorada. Outro hábito que adquiri com muito custo foi o de ser gentil comigo mesmo. E não se cobrar recomeços quando há outras urgências a tratar é uma das atitudes gentis. Mas ser gentil não significa passar pano para a preguiça ou para a falta de responsabilidade, muito pelo contrário, é entender que existem limites que devem ser respeitados para que a gente não pire e comece a meter os pés pelas mãos; quando a gente percebe que a gentileza faz com que fiquemos ainda mais atentos ao que devemos ou não fazer e ao ritmo da nossa vida, tudo fica mais tranquilo.
Por isso, voltei. Talvez essas postagens esporádicas no blog também tenham contribuído para a minha volta. Espero dar conta. Espero poder estar à altura dessa história tão bonita que se estende à minha frente. Espero também amanhã conseguir ao menos fazer um pouco de cardio na academia. E assim, comemorando as pequenas vitórias, a gente segue em frente.