Diálogos II

Manhã de sábado, sol de inverno que começa a esquentar, semáforo numa travessa da Avenida Brasil, São Paulo. Parados, inquietos, estão motoristas já nervosos com a proximidade do meio-dia, quando o trânsito se torna um caos, especialmente nas grandes avenidas. Muita gente trabalha aos sábados, ou estuda ou faz algum esporte e meio-dia é quando bate o grande sino da fome por um pastel, ou uma feijoada na Benedito Calixto, ou em qualquer lugar onde o torresmo, a couve e a laranja dançam para lá e para cá… muitas vezes ao som do pagode.

– Tio, tem dez centavos? – pede a menininha de vermelho, morena, cabelos
presos num coque atrás da cabeça com um elástico branco, carinha suja e pés
descalsos.
– Peraê, tenho aqui. Você está bem, menina bonita? – era bonita mesmo,
grandes olhos pretos observavam os movimentos das mãos do motorista e a luz
vermelha do sinal de trânsito.
– Mais ou menos… snif. – uma fungadinha no nariz entupido, seguido de uma
esfregada da manga da blusinha vermelha imunda no nariz – estou meia
gripada.
– Então vá para casa descansar, menina. Não pode ficar assim, no frio… –
disse o motorista, enquanto as moedas tilintavam sobre a palma da mão gelada e
pequenina da garota.
– É, eu sei. Deus lhe abençoe, moço. – brilhavam um pouco mais aqueles
grandes olhos pretos.
– Obrigado, a você também, menina. – disse o motorista, atrás de seus
óculos escuros olhos verdes preocupados acompanhavam a garota chegar sã até a
calçada, ao mesmo tempo que sua mão firme e bondosa trocava a marcha do carro
para prossegir. Ainda houve tempo da despedida, com a menina atravessando com
displicência infantil, entre pulinhos e corridinhas, em meio aos carros que
esbravejavam furiosos pela avenida.

3 Comentários Diálogos II

  1. Clebs 4 de julho de 2007 at 18:18

    No início, estava tudo muito interessante, vc resolvia colocar São Paulo como cenário e vomitava os dramas habtuais e, digamos, comuns sobre o “universo ao seu redor”.

    Agora Páre!!!!

    Páre de exaltar depressão em seus leitores…. A menininha de vermelho??? Essa maldita menina de vermelho me fez remoer uma culpa amárga dentro de mim….

    Chega né?

    Chega de dramas urbanos paulistanos. Se ao menos não dá para mudar o drama urbano, mude de cidade. NYC, Tokyo, e por que não Paris????? (muito mais digno!), talvez Berlin ou Havanna já que seria-te mais familiar.

    E é isso aé, já dizia Leão Lobo: “Dignidade já!”.

    HAHAHAHAHAHAH

    beijooooooooooooS adoro-te!

    Responder
  2. Marcos 9 de julho de 2007 at 00:42

    hahahaha!!
    Engraçado o comentário acima…
    😉
    ————
    Bom!! Quanto ao meu comentário…
    Pq agente sempre acha que vivenciou histórias parecidas??
    😉
    Belo jeito de contar algo simples, petê!! A fantasia da sempre um gostinho sofisticado…

    Responder
  3. William Glauber 9 de julho de 2007 at 16:32

    Poderia ser o drama em uma cidadezinha qualquer. O drama é o mesmo, é humano, é existencial, é inevitável, é impactante… e deprimente e deprimido.
    Beijos, William.

    Responder

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *