[Amostras de tradução]

Alemão

Screen Shot 2016-06-09 at 12.08.38

3

 

O que mais surpreende o doutor é que ele dorme. Está prestes a se lançar a uma nova vida, precisava temer, precisava duvidar, mas dorme, os fantasmas não se deixam entrever, embora ele espere sem cessar os antigos embates de sua mente. Mas desta vez não parece haver qualquer batalha, há a maravilha e o plano que surge dessa maravilha. Ele não pensa muito nela, ele a inspira e expira, às tardes na cozinha, quando passeiam em pensamentos por Berlim, quando dela emana um aroma. Às noites, na cama, ele se detém aqui e ali em uma frase, um pedaço de pele, as franjas do vestido, como ela segurava o garfo durante a refeição, ontem, quando perguntou a ela sobre seu pai, que é um judeu fervoroso e com quem ele há muito vive em discórdia. Por enquanto, ela não emerge em seus sonhos. Mas ele não a perde no sono, sabe logo pela manhã que ela está em algum lugar, como se houvesse uma linha entre eles pela qual se atraíssem mútua e vagarosamente. Até agora quase não a havia tocado, mas não apenas está certo de que chegará o dia no qual a tocará, como não se odeia por isso, quase como se fosse seu direito, e o horror, uma superstição ultrapassada.

Há uma semana eles se encontram todos os dias. Suas irmãs e os filhos, ele os via em geral no café da manhã, apenas ontem teve de ouvir que tinha muito pouco tempo para eles. Elli disse isso, mas na verdade estava bem satisfeita com ele e a tal Dora e com o fato de ele ter com o que se ocupar nessa sonolenta Müritz em vez de passar suas noites com aquelas histórias estranhas. Sobre o trabalho, o Doutor preferiu nunca falar. Se perguntassem sobre isso, ele responderia que não escreve nenhuma carta, nem mesmo a Max, a quem ele poderia contar que estava pensando em ir para Berlim. Mas, além disso, a possibilidade é muito ínfima, mais uma brisa que um pensamento, algo que quase não se deixa conceber em palavras e por uma única frase errada, assim ele teme, se desvaneceria.

Michael Kumpfmüller, O esplendor da vida — O último amor de Kafka, L&PM, 2016.


9788556520098

— Sentem-se — disse Inge Lohmark, e a turma se sentou. Ela prosseguiu. — Abram o livro na página sete. — E eles abriram o livro na página sete, e começaram com os ecossistemas, as dependências e as inter-relações das espécies, dos seres e de seu ambiente. Da teia alimentar da floresta mista foram para a cadeia alimentar da savana, dos rios e até dos mares, e, finalmente, para o deserto e as baixas de maré.

— Vejam, ninguém, nenhum animal, nem o ser humano, pode existir sozinho. Entre os seres, prevalece a competição. Às vezes pode haver também alguma cooperação, mas isso dificilmente acontece. As principais formas de coexistência são a competição e o relacionamento entre predador e presa.

Enquanto Inge Lohmark riscava no quadro-negro setas que partiam dos musgos, liquens e fungos para as minhocas e escaravelhos, porcos-espinhos e musaranhos, então para os chapins-reais, cervos e falcões, e, finalmente, uma última seta para o lobo, aos poucos surgia a pirâmide, e o ser humano ocupava o topo, ao lado de alguns predadores.

— A verdade é que não há nenhum animal que coma água ou leões.

[…]

Era o começo do ano letivo. A inquietação de junho, época de calor opressivo e braços nus, havia passado. O sol percorria a fachada envidraçada e transformava a sala de aula numa estufa. No fundo das cabeças vazias, germinava a expectativa pelo verão. A simples perspectiva de desperdiçar os dias no ócio completo roubava a concentração dos alunos. Com a visão embaçada de quem saiu da piscina, com a pele oleosa e o desejo acalorado de liberdade, eles permaneciam presos nas cadeiras e sonhavam com as férias que se aproximavam. Alguns pareciam distraídos e incapazes de raciocinar, outros fingiam submissão por conta dos boletins iminentes e empurravam a prova de biologia para a mesa da professora como gatos deixando ratos mortos no tapete da sala. Na aula seguinte, perguntavam sobre a nota, com a calculadora de bolso a postos, ansiosos por melhorar a média em três décimos.

Judith Schalansky, O pescoço da girafa, Alfaguara, 2016.


amonO olhar da mulher é o que me parece familiar. Estou na Biblioteca Central de Hamburgo, e tenho nas mãos um livro de capa vermelha que acabo de puxar da prateleira. Na capa, o retrato em preto e branco de uma mulher de meia-idade. Seu olhar é pensativo, um tanto cansado, desanimado. Os vincos ao lado da boca apontam para baixo. Ela parece infeliz.

Procuro o subtítulo: “A história da vida de Monika Göth, filha do comandante do campo de concentração do filme A lista de Schindler“. Monika Göth! Conheço esse nome. É o nome da minha mãe, que no passado me deixara em um orfanato e que não vejo há muitos anos.

Antigamente, eu também me chamava “Göth”; nasci com esse sobrenome. Escrevi “Jennifer Göth” no meu primeiro caderno escolar — até a minha mãe me entregar para adoção e eu receber o sobrenome dos meus pais adotivos. Na época, eu tinha sete anos.

Por que o nome da minha mãe está neste livro? Analiso a capa. Ao fundo, reconheço por trás da foto da mulher em preto e branco a sombra de um homem de boca aberta com uma metralhadora na mão. Deve ser o comandante do campo de concentração.

Jennifer Teege, com Nikola Sellmair, Amon: meu avô teria me executado, Agir,  2014.


Despertar na Alemanhaele1

Quem mais me surpreendeu foi o Volk, o povo alemão. E esforcei-me para fazer o que era
humanamente possível para destruir as bases de uma existência futura neste solo profanado pelo inimigo. Ordenei a destruição de tudo: pontes, usinas, estrada
s, estações de trem. Desde então, inspecionei, acho que em março, o cumprimento desse pedido e creio ter me expressado de forma bastante clara quanto a isso. Todos os serviços públicos deveriam ter sido destruídos: s
stemas de distribuição de água, operadoras de telefonia, meios de produção, fábricas, oficinas, fazendas, qualquer propriedade, tudo, e com isso eu realmente quis dizer tudo! Nesses casos é necessário proceder com cuidado e precisão, e não deve restar a menor dúvida quando uma ordem como essa é expedida, pois sabemos que o simplório soldado local, a quem, é compreensível, falta visão geral e conhecimento dos contextos estratégicos e táticos em seu setor no fronto, dirá: “Mas eu tenho mesmo que incendiar isso… hum… quero dizer, esta banca de jornal aqui? Ela não pode cair nas mãos do inimigo? É tão terrível assim que uma banca de jornal caia nas mãos do inimigo?” Terrível? Claro que é terrível! O inimigo também lê jornais, não? Ele fará negócios, usará a banca contra nós, e tudo que encontrar! […] E, por esse motivo, esse povo não poderia nem mesmo continuar a existir.

Porém, e posso confirmar isso agora, ele ainda está aí.

Para mim, isso é um tanto incompreensível.

Por outro lado, eu também estou aqui, o que é ainda menos compreensível.

Timur Vermes, Ele está de volta. Intrínseca, 2014.

Inglês

12695620_10206568447391862_1371631689_o-2

No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército.

Visitar o túmulo de Kathy foi a menos dramática das duas.

Ela está enterrada no Cemitério de Harris Creek, a pouco menos de uma milha da rua onde moro e onde criamos nossa família. Levá-la ao cemitério talvez tenha sido mais difícil do que deveria ser. Nenhum de nós esperava precisar tão logo de um funeral, por isso não havíamos providenciado nada. É um pouco mortificante, para usar a palavra mais precisa, ter de discutir com um administrador de cemitério sobre sua esposa não ter feito uma reserva para ser enterrada. No fim das contas, meu filho, Charlie, que por acaso era prefeito, mexeu alguns pauzinhos e conseguiu o jazigo. Ser pai do prefeito tem suas vantagens.

Mas então, sobre o túmulo. Simples e discreto, com uma daquelas lajes pequenas em vez de uma grande lápide. Como contraste, Kathy jaz ao lado de Sandra Cain, cuja lápide um tanto grande demais é de granito preto polido, com a foto de colegial de Sandy e uma frase sentimental de Keats sobre a morte da juventude e da beleza inscrita em jato de areia na parte da frente. É muito a cara de Sandy. Kathy teria achado graça se soubesse que Sandy estava estacionada ao lado dela com uma lápide grande e dramática.

John Scalzi, Guerra do velho, Aleph, 2016.


jornada_capa1

A beleza da Jornada do Herói é que ela não apenas descreve um modelo em mitos e contos de fadas, mas também é um mapa preciso do território que se deve percorrer para se tornar um escritor ou, mais importante, um ser humano.

A Jornada do Herói e a Jornada do Escritor são a mesma coisa. Qualquer um que comece a escrever uma história logo encontra todas as provas, testes, provações, alegrias e recompensas da Jornada do Herói. Encontramos todas as Sombras, Camaleões, Mentores, Pícaros e Guardiões do Limiar na paisagem interior. Escrever não raro é uma jornada perigosa para sondar as profundezas da alma e trazer de volta o Elixir da experiência – uma boa história. Baixa autoestima ou confusão sobre os objetivos podem ser as Sombras que congela nosso trabalho; um editor ou o próprio lado crítico podem ser os Guardiões do Limiar que parecem bloquear nosso caminho. Acidentes, problemas com o computador e dificuldades em relação a tempo e disciplina podem atormentar e nos provocar, como Pícaros. Sonhos de sucesso fora da realidade ou distrações podem ser os Camaleões que atentam, confundem e nos atordoam. Prazos, decisões editoriais ou a luta para vender nossa obra podem ser as Provas e Provações com que parecemos morrer, mas após as quais ressuscitamos para escrever novamente.

Christopher Vogler, A jornada do escritor – estrutura mítica para escritores. Aleph, 2015.


nuvens1Oi, Stuart,

Acabei de saber das novidades. Foi anunciado uns dias atrás, mas só entrei no computador esta noite. Na maioria das vezes que acesso a internet, procuro o seu nome, e hoje havia uma notícia nova no Texas Online Chronicle dizendo que sua execução foi marcada para 1º de maio.

Primeiro de maio, Stuart. Não posso acreditar. Justo nesse dia.

Minhas mãos estão tremendo tanto que é difícil escrever, mesmo que eu tenha conseguido uma cadeira dobrável novinha que o meu pai deve ter comprado em uma liquidação da loja de jardinagem ou algo assim. Não consigo imaginar como você deve estar se sentindo. Pelos meus cálculos, provavelmente você deve ter acabado de acordar, pois Texas está seis horas atrás da Inglaterra, e aposto qualquer coisa com você que não vai conseguir tomar café da manhã. Claro, nem preciso dizer que farei tudo o que puder para ajudar. Talvez eu possa entrar em contato com a freira que foi lá na escola para falar sobre pena capital e possamos organizar alguma coisa, por exemplo um protesto ou um abaixo-assinado, e não se preocupe, porque aposto que vamos conseguir cem nomes das freiras do convento.

Annabel Pitcher, Nuvens de Ketchup. Rocco, 2015.


mistbornii

Escrevo estas palavras em aço, pois qualquer coisa que não seja inscrita no metal não é digna de crédito.

1

O exército rastejava como uma mancha escura pelo horizonte.

O rei Elend Venture estava em pé, imóvel, sobre a muralha da cidade de Luthadel, espreitando as tropas inimigas. Ao redor dele, as cinzas caíam do céu em flocos grandes e indolentes. Não eram as cinzas brancas queimadas que se viam em carvão morto; eram cinzas pretas, mais profundas, mais ásperas. As Montanhas Cinzentas estavam especialmente ativas naqueles tempos.

Elend sentiu o pó de cinzas no rosto e nas roupas, mas ignorou-o. À distância, o sol vermelho-sangue estava próximo do ocaso. Ele iluminava por trás o exército que viera arrancar o reino de Elend.

— Quantos? — Elend perguntou em voz baixa.

— Cinquenta mil, acreditamos — Ham disse, recostando-se no parapeito, braços robustos cruzados sobre a pedra. Como tudo na cidade, a muralha era manchada de preto por incontáveis anos de chuvas de cinzas.

— Cinquenta mil soldados… — Elend disse, baixando mais a voz. Apesar do recrutamento pesado, Elend mal conseguira vinte mil homens sob seu comando, e estes eram camponeses com menos de um ano de treinamento. Manter até mesmo essa pequena quantidade estava esgotando seus recursos. Se fossem capazes de encontrar o atium do Senhor Soberano, talvez as coisas fossem diferentes. Na atual conjuntura, o reinado de Elend corria sério risco de acabar em desastre econômico.

— O que acha? — Elend perguntou.

— Não sei, El — Ham disse num murmúrio. — Sempre foi Kelsier quem teve a visão.

— Mas você o ajudava a planejar — Elend disse. — Você e os outros eram a equipe dele. Aqueles que apareceram com uma estratégia para derrubar o império e depois fizeram com que acontecesse.

Brandon Sanderson, Mistborn — Nascidos da Bruma — Livro 2 — O poço da ascensão, LeYa, 2015.