‘Kindred – Laços de sangue’, de Octavia Butler: uma lacuna a ser preenchida no Brasil

Com sua morte prematura em 2006, Octavia E. Butler deixou não apenas o legado de treze livros, nos quais traz como tema a questão negra e feminista em grande relevo, mas também a inspiração para outras autoras criarem seus universos e trabalharem a ficção científica para explicar melhor o preconceito e a misoginia. Após sua morte, a Carl Brandon Society criou a bolsa Octavia E. Butler Memorial Scholarship, destinada a autores negros que queiram ter aulas na famosa Clarion Writers Workshop, onde Octavia começou a escrever.

E, por incrível que pareça, o nome de Octavia passou por baixo dos radares das editoras brasileiras até que a Morro Branco resolveu entrar na briga para publicá-la no Brasil. Possivelmente era um daqueles casos complicados de direitos autorais, pois a autora morreu cedo sem deixar herdeiros diretos, mas alguém precisava trazer aos fãs de Butler no Brasil (sim, eles existem) uma versão em português, fazendo justiça à qualidade da obra da autora. E a tradução de Kindred – Laços de sangue ficou a cargo de Carolina Caires Coelho, que fez um trabalho excelente.

Kindred, a missão

A vida de Dana e Kevin está entrando nos eixos. Estamos em 1976, ele é um autor branco já com certo sucesso, ela, autora negra, ainda luta para alcançar seu lugar na literatura. Acabam de mudar de apartamento, estão arrumando os livros no escritório quando Dana sente uma tontura, uma vertigem e apaga por um instante.

Quando acorda, está ajoelhada embaixo de uma árvore e, ao longe, vê um garoto se afogar no rio à sua frente. Sem pensar um instante, ela se lança às águas e salva o garotinho ruivo. Quando volta à margem, depara com a mãe desesperada e, logo em seguida, com a espingarda de um homem. Nesse instante, a tontura acomete a mulher de novo e ela desperta em seu escritório, toda enlameada, e vê seu marido boquiaberto.

E assim tem início a missão de Dana. Uma missão forçada, sofrida, mas que ela acaba abraçando, pois dela depende sua existência.

Primeira frase

Diversos livros têm aquela primeira frase que causam um impacto grande no leitor, que pescam a gente de uma vez, que surpreendem por sua estrutura ou por uma informação que, apesar de não fazer muito sentido, traga a gente para dentro da história. Lembro de pronto a frase inicial de Anna Kariênina, de Tolstói, na tradução de Rubens Figueiredo para a Cosac Naify: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Ou de A paixão de Amâncio Amaro, de André Laurentino, lançado pela Agir: “Entretanto, Amâncio Amaro acordou do sono intranquilo guardando ainda a terrível dúvida: não sabia ao certo se ele era ele mesmo, ou se era outro”. E Kindred – Laços de sangue também tem sua frase inicial arrebatadora: “Perdi um braço na minha última volta para casa”. A partir daí, tudo pode acontecer.

Não está sendo fácil

Kindred – Laços de sangue é daquele tipo de livro que embrulha o estômago. Mas não por ter partes nojentas ou sangue escorrendo pelas beiradas. Mas porque nos lembramos a todo momento de como o mundo é e foi injusto conosco, a população negra, como é e foi injusto com a mulher de todas as raças e como não havia aonde correr para se esconder das agruras. Para mim foi bastante sofrido prosseguir no livro, pois os percalços que Dana sofre foram sentidos na pele por nossos ancestrais, que nem estão tão distantes assim.

E muitos negros ainda sofremos os preconceitos que são retratados no livro, em uma ou outra medida. E muitas mulheres ainda sofrem com o machismo e a ideia estapafúrdia de que elas são propriedade do homem, de que seu corpo existe para que o homem desfrute dele como bem entender. Escravidão, falta de perspectiva, estupro, aprisionamento, crueldade: nesse livro não faltam elementos fortes, duros de enfrentar, mas extremamente necessários, ainda mais em tempos como os nossos.

Diálogos: a grande dificuldade da tradução

Uma das grandes dificuldades de qualquer tradução é a emulação da voz dos personagens para caracterizá-los a contento. Muitos tradutores literários vão me dar razão, pois fazer com que um personagem fale de forma convincente e ao mesmo tempo totalmente legível é um desafio e tanto. E quem teve contato com a versão de Kindred em inglês talvez estranhe um pouco, mas apenas no início, a voz dos escravos. Porém, a tradutora se esmerou em trazer uma voz convincente, que diferenciasse a educada Dana, que aterrissa em sua viagem no tempo no meio do período escravagista norte-americano, dos negros a quem era negada a simples possibilidade de aprender a ler e escrever. Essa é uma dificuldade técnica que precisou ser superada com diversos artifícios, mas que resultou em grande naturalidade para o texto.

Escarra na boca que te beija

Dana e o leitor logo descobrem o que acontece quando a escritora tem suas tonturas: ela volta no tempo para salvar Rufus, que é um de seus ascendentes da época da escravidão. Rufus é branco, como toda a sua família, e o tratamento que dá a Dana no início é bastante incomum, pois  ele admite que ela salvou sua vida, sempre salva sua vida, e seus sentimentos pela negra de fala “branca” são extremamente confusos. Ao mesmo tempo, Dana começa a se organizar, pois as tonturas começam a se repetir em intervalos totalmente imprevisíveis.

Um dos grandes dilemas da mulher, quando ela enxerga seu destino, é a de salvar alguém que está saindo aos seus, ou seja, salvar um branco que reproduz fielmente a questão da escravidão e da mulher do século XIX, mesmo tendo, em toda a sua trajetória, uma negra que lhe salvou a pele e que tenta instruí-lo para ser alguém melhor. Para enxergar os negros como seres humanos. Em um momento, ela diz “Eu me arrependo por não ter deixado Rufus jogado na lama. E pensar que eu o salvei para que ele pudesse fazer algo assim…!” Esse fantasma percorre todo o livro e aumenta ainda mais o peso da leitura.

Uma porta aberta

Kindred – Laços de sangue é uma aposta da editora para este ano em que ela se firma no mercado. Mas também abre as portas para uma maior diversidade na literatura de gênero, especialmente na ficção científica em todos os seus nichos. As mulheres ainda são uma minoria, o fandom as trata muito mal, inclusive, as premiações em que as mulheres se destacam sempre causam furor de alguns “desaplaudidos” barulhentos, isso sem falar no que causa o universo trans e queer dentro da literatura. Mas as adversidades acabam fazendo surgir outras iniciativas bacanas, como o #LeiaMulheres (clique aqui para conhecer). Esperamos que esse lançamento faça com que outras editoras despertem e enxerguem como é importante investir também na diversidade de autores, e que os escritores das ditas minorias também vejam como é importante se representar, alçar-se ao protagonismo de suas obras, alcançar sua voz.

 

1 Comentário ‘Kindred – Laços de sangue’, de Octavia Butler: uma lacuna a ser preenchida no Brasil

  1. Sybylla 7 de novembro de 2017 at 16:34

    Posso ler esse livro várias vezes que sempre será uma experiência nova. É um feliz momento para a literatura ter este livro em português.

    Responder

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