‘Um grito de amor do centro do mundo’: singeleza de Kyoichi Katayama

O que explicaria 3,5 milhões de exemplares vendidos, uma série de TV e um mangá de imenso sucesso em uma história singela de amor e separação? Os japoneses, tecnologicamente avançados e com uma economia pujante, não deixam de lado essa característica que de certa forma traz equilíbrio: a simplicidade de suas histórias.

Simplicidade aqui não é sinônimo de chatice ou de superficialidade, mas de transparência, clareza. E Um grito de amor do centro do mundo, de Kyoichi Katayama, com ótima tradução de Lica Hashimoto, mostra uma certa tendência da literatura japonesa contemporânea: o simples, o singelo, muitas vezes conquista mais que o complexo e o rebuscado.

Em uma resenha anterior, falei de Tsugumi, de Banana Yoshimoto (clique aqui), livro em que há também muita simplicidade em suas linhas, apesar de sua trama que deixa dúvidas sobre a narradora e a própria personagem que dá título à obra. Em Um grito de amor do centro do mundo, não há questões imediatas que possamos ressaltar além das alegrias de uma paixão e das dores da perda do ser amado. Katayama explorou esse mote tantas vezes repisado de um modo encantador, o que talvez esclareça seu sucesso estrondoso na terra natal.

Amor, comum amor

Gosto muito de romances em que as cartas principais já estão na mesa, e os detalhes, esses sim importantes, começam a ser montados aos poucos diante dos olhos. Nas primeiras páginas de Um grito de amor do centro do mundo, já sabemos que Aki não está mais entre nós, e que Sakutarô acompanha os pais da garota para espargir suas cinzas em algum lugar. Como na novela Bonsai, de Alejandro Zambra, ou no romance A travessia de Eva, de Pierre Péju, os fatos principais já estão às claras, ou seja, o que menos importa nesses romances é o fim. O recheio é a parte suculenta dessas páginas, que nos leva ao fim inevitável, mas sempre com uma surpresa.

Sakutarô, um rapaz como outro qualquer, que ouve rock e pratica kendo, conhece, nos primeiros anos escolares, Aki, menina bonita e muito sincera, que também não tem nenhum predicado extraordinário. Aos poucos, os dois desenvolvem uma relação, começam a namorar, se envolvem de verdade, fazem planos para o futuro. Nada de diferente, a não ser por um percalço na vida dos garotos: a morte. Que é uma constante que assombra aqueles dois, e, no decorrer do romance, somos lembrados que é uma constante para todos nós, porém a ignoramos em prol de nossa sanidade para termos a sensação de que o fim está próximo para quem está distante, e não na próxima esquina.

Katayama nos pega pela mão e apresenta uma história simples, que toca em feridas ignoradas por muitos, e aí está a força de sua literatura.

No tempo da delicadeza

Uma das coisas que mais me cativou neste romance foram as imagens sutis e delicadas criadas por Katayama. A história se passa em algum momento dos anos 90, provavelmente, e se estende até o início dos 2000, mas a tecnologia e toda a influência de redes sociais e afins não invadem as páginas do livro; ao contrário, temos um retrato de uma juventude japonesa que ainda não fora conquistada pela febre dos eletrônicos.

Quem acha que isso não faz diferença no momento em que se cria, está muito enganado.
Verossimilhança não é um artifício, mas uma necessidade, e não significa que o livro deva retratar fielmente uma realidade, mas a realidade descrita precisa fazer com que o leitor “compre” a ideia do livro.

E Um grito de amor consegue fazer isso com a paisagem de um Japão interiorano e suas flores, em especial as cerejeiras (que têm imensa importância no romance), o mar, os templos e os castelos. É dessa beleza pura, mas não completamente ingênua, que são feitas as páginas desse romance. E, quando você menos espera, está torcendo pelos personagens, vibrando com eles, mesmo sabendo do destino trágico do casal. Sem percebermos, Katayama nos pega pela mão e apresenta uma história simples, que toca em feridas ignoradas por muitos, e aí está a força de sua literatura.

O avô e os arquétipos

Uma personagem de destaque no livro é o avô de Sakutarô, que assume o papel de mentor, como o de toda jornada de herói, mas não é aquele sábio que faz com que o neto entenda os segredos do mundo. Ao contrário, ele é um homem que também carrega consigo uma história de dor e separação, e para conseguir amenizar a própria tristeza, acaba arrastando o neto em uma pequena aventura, dando uma pitada de pícaro ao velhinho. A partir daí, Sakutarô se transforma em um aparente cúmplice dos caprichos do avô, mas na verdade era mais uma lição que o rapaz precisava aprender para lidar, mais adiante, com a própria dor de se separar de forma tão brusca de Aki, o amor de sua vida.

Estranhamento

Não é fácil para nós, ocidentais, lermos livros de culturas orientais. Em geral, eles nos causam muito estranhamento pela  diferença cultural. Mas é um desafio interessante. Por melhor que esteja a tradução, sempre há alguns percalços que são próprios do idioma. Para mim é sempre uma alegria estar diante de um livro que retrate uma realidade muito diferente da minha, pois assim consigo ser de fato transportado para outro mundo. É uma maneira de aprender mais sobre o outro, e, como tradutor, uma das minhas funções é lidar com a alteridade, com a diversidade.

A cada contato com uma cultura tão distante como a japonesa por meio de sua literatura, mais consigo enxergar como ela se estrutura, se mantém e evolui. E a cada livro, o prazer de explorar essa cultura através de suas letras aumenta.

UM GRITO DE AMOR DO CENTRO DO MUNDO | Kyoichi Katayama

Editora: Alfaguara;
Tradução: Lica Hashimoto;
Quanto: R$39,90 (160 págs);
Lançamento: Janeiro, 2011.

Originalmente publicado em A Escotilha.

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