Quebrando a quarta parede

Estava jantando com uma amiga um dia desses e começamos a falar sobre invisibilidades das mais diversas, e eu, como bom viciado que sou na tradução, acabei fazendo uma pergunta: “Qual foi o último livro traduzido que você leu?”. Ela me respondeu que havia sido o de um professor francês que ela teve na faculdade, e que ele acabou ajudando na revisão da tradução do próprio texto. Então, perguntei quem era o tradutor. “Não sei”, foi sua resposta. “Aliás, nem sei onde se vê quem traduziu.”

Essa é uma situação totalmente normal. Inclusive entre tradutores de outras áreas que não sejam a literária – e na literária também acontece de o colega não ter ideia de quem traduziu aquele último romance policial sueco que ele adorou. E como é que a gente muda essa situação? Tem como mudar? É bom para quem que tenhamos visibilidade, além de nós? É ruim para alguém?

Parece complicado para o leitor que haja essa figura estranha na relação dele com o autor do livro estrangeiro. Dá um certo incômodo em alguns leitores admitir que não seriam capazes de ter uma relação mais direta com aquele cara por quem nutrem uma admiração imensa, o escritor, e que outra pessoa — outra cabeça, uma sombra — tenha que intermediar essa relação. Claro que isso não é consciente, pois muitos leitores sequer lembram que estão lendo um livro traduzido. Quando lembram, quer dizer que algo deu errado nessa intermediação. Talvez seja este um dos motivos da invisibilidade do tradutor.

Mas é sempre bacana quebrar a quarta parede, como bem fazia Brecht em suas peças de teatro. Lembrar ao leitor de que existimos como parte daquela obra, como elemento de ligação, como “ponte”, mas de uma maneira suave. Mostrar que somos aliados, e não inimigos do leitor, que não somos sorrateiros e intrusos. E não podemos fazer isso dentro do texto, pois daí acontece aquela lembrança desagradável— e queremos que ele esteja do nosso lado, certo? Devemos marcar essa presença fora do texto, por meio de entrevistas, blogs, redes sociais. Aproximar o leitor do tradutor, mostrar os bastidores, é sempre interessante. Minhas experiências de bate-papo com leitores de livros que traduzi sempre foram muito produtivas e divertidas, e os leitores ficam, de certa forma, ávidos por saber como foi para o tradutor ter contato com aquele autor como “primeiro leitor”, como lidou com dificuldades dentro do texto; no caso de livros de fantasia, como foi lidar com o worldbuilding de fulano e sicrano.

Aos poucos, o tradutor ganha espaço na mídia. Mas a situação ainda está longe de ser boa. A quantidade de textos em blogs, sites, vídeos de YouTube (feitos pelos famosos booktubers) que não comenta – e para isso precisariam de alguns segundos – o nome de quem fez a tradução é imensa. Apenas em uma situação — quando a tradução está ruim — o nome de quem traduziu vem à tona. E por que não na situação contrária? Por que não comentar quando uma tradução está bem-feita? É uma questão de reconhecimento que todo mundo deseja ter com seu trabalho, seja ele qual for. Apenas isso, não há nenhum motivo escuso. Como não há quando elogiamos o bolo de quem vive de fazer bolos, ou a médica que nos atende de forma atenciosa, o músico que faz aquela canção que inspira nossa vida, a professora que é fantástica e transforma nossa vida. Por que não se lembrar do tradutor que passou meses para traduzir um livro que você adora e elogiá-lo?

Então, quando pegar um livro traduzido, dê uma passadinha na página de rosto (aquela em que fica o título do livro e o nome do autor) ou atrás dessa página (nos créditos do livro) e olhe o nome do tradutor, dos revisores, do editor etc. Esse pessoal suou bastante para que essa obra chegasse às suas mãos da melhor maneira possível. Esse cuidado não vai estragar sua experiência de leitura, muito pelo contrário: pode deixá-la até mais interessante.

[Publicado originalmente em https://pontedeletras.com/2016/07/21/quebrando-a-quarta-parede/]

2 Comentários Quebrando a quarta parede

  1. Yuri 26 de janeiro de 2017 at 10:29

    Belo texto!!! cheguei aqui justamente por conta disso, acabei de ler “a guerra do velho”(gargalhei, chorei de rir e reli muitas partes do livro) e estou com “o protegido”(curtindo bastante). E digo que passei aqui só para dar os meus parabéns e agradecer!

    Yuri Ribeiro

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    1. Petê Rissatti 6 de fevereiro de 2017 at 14:55

      Obrigado, Yuri! E fique ligado que, se tudo der certo, este ano tem “Brigadas Fantasma” e a terceira parte do Ciclo das Trevas, que também traduzi.

      Abraço!

      Responder

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