Felicidade, sim

Uma brisa correu sobre a pele do mago Aldrich e ergueu seus pelos em ondas de arrepio. Estava mais que exausto naquela hora da madrugada, mas olhava pela janela do segundo andar da casa para as nuvens que se aglomeravam em peso e sorria. Um sorriso que era a mistura de duas satisfações. De ter vencido duas batalhas que pareciam perdidas, a da magia e a do amor, que em muitos momentos se confundem, se fundem numa só.

Virou o rosto e viu seu amante na cama, ressonando. Depois, um vislumbre de lembrança, do dia em que derrotou um demônio. Naquele mesmo dia, havia reencontrado o homem que daria sentido à sua vida novamente, um camponês das terras em que o mago nascera, crescera e da qual foi expulso por seus poderes.

Será que foram apenas pelos poderes?

Não importava. Nada mais importava ao lado daquele homem, nada mais importava depois de ter drenado as forças abissais da criatura maligna que destruíra parte do vilarejo que havia escolhido para ser seu lar anos antes. Onde foi recebido com desconfiança, mas logo o lugarejo enxergou em seus poderes uma vantagem: curas, feitiços e encantamentos que afastavam os males que perambulavam pelas estradas enlameadas do mundo. E a prova final foi aquele demônio, um enviado das entranhas da terra, sedento do sangue humano.

Nunca tinha visto criatura mais horrenda. Quando Aldrich ouviu os gritos, ela já havia ateado fogo nas primeiras casas do vilarejo. Assemelhava-se ao cão enorme e em pé, seus olhos eram âmbar e faiscavam, suas mãos terminavam em garras curvas manchadas e os chifres também se enrolavam nas têmporas. Porém, tinha um rosto bastante humano, o que lhe emprestava uma aparência ainda mais perturbadora. Sua pele era reluzente e amarelada, e dos lábios brotava um vômito fumegante que incandescia o que tocava. Aldrich já havia enfrentado outras criaturas, mas não algo tão aterrador.

Tocou o braço e sentiu um pouco de dor. Mas já não sabia se vinha do esforço na luta contra o demônio ou da batalha de línguas e dentes, corpos e sexos que travara horas depois, por horas a fio. Por mais exaurido que estivesse por usar suas forças mágicas para derrotar a criatura, a saudade do camponês também precisava ser vencida, ou ao menos apaziguada, depois de tanto tempo. Ele também sofrera com a partida de Aldrich e, um dia, sem mais aguentar a falta que lhe fazia, fugiu, deixando para trás tudo que conhecia para perambular pelo mundo em busca de Aldrich. E quase chegou junto com a criatura que por pouco não havia levado sua vida.

Quando Aldrich abriu a porta depois de ouvir os gritos, o cheiro da morte já empesteava o vilarejo. O demônio já havia feito suas primeiras vítimas e não pararia até se fartar com sangue. Um grupo já estava reunido na porta de Aldrich, esperando que ele desse instruções, mas ele só disse “Corram para o fundo da floresta” e fechou a porta. Os camponeses olharam-se, perplexos, e começaram a fugir em direção ao bosque que ficava às margens do vilarejo. Enquanto corriam, Aldrich buscava nas páginas do livro herdado de seu mestre alguns encantamentos que poderiam parar a fera que avançava. Os gritos não paravam.

Mas outros gritos também se faziam presentes na lembrança recente de Aldrich. Eram gemidos e arfares tão deliciosos que amorteciam o desespero das horas mais distantes. A perfeita união de corpos e cheiros dentro daquele quarto estava muito além do que qualquer magia conseguiria criar. Mais um arrepio correu sua pele, circundando a nuca e resvalando a boca, como se revivesse as horas em que se entregara aos desejos mais profundos. Pois, merecia. Havia vencido um demônio.

Que o encarou, lá no início do dia, com aquela fúria característica. Munido de algumas ervas e um saco de sal, Aldrich finalmente saiu de casa para a entrada do vilarejo. Duas casas já crepitavam entre as chamas, e ele ordenou que os mais ágeis presentes pegassem baldes com água para apagar o incêndio. Enquanto isso, fez um pequeno corte no próprio dedo para atrair a criatura, que ao sentir o cheiro de sangue urrou e avançou a passos firmes e ruidosos. Aldrich abriu um círculo de sal encantado ao seu redor para que o demônio não atravessasse, e fez um outro círculo com uma abertura. Quando o demônio se aproximou, ele se concentrou e uma luz trêmula surgiu diante do seu peito. O demônio ficou encantado e avançou numa confusão de garras afiadas e mordidas que Aldrich preciso evitar, esquivando-se como podia. Mesmo com sua agilidade, uma das garras atingiu em cheio seu braço, mas sem cortar. Talvez fosse a causa da dor que sentiu até mais tarde, quando já estava a sós com seu amante. Num esforço gigantesco, Aldrich deslocou a luz para dentro do círculo com a abertura, e o demônio, em sua demência primeva, avançou para dentro do outro círculo. Nesse momento, Aldrich saltou para fora do próprio círculo e fechou a abertura do círculo ao lado, aprisionando a criatura no círculo de sal mágico.

Daí em diante, durante horas, Aldrich recitou fórmulas mágicas e encantamentos que drenaram as forças da criatura e, ao mesmo tempo, restauraram as energias que precisaria para enfrentar sua segunda batalha, aquela entre lençóis. O demônio urrava, como se devolvesse os feitiços, mas dentro do círculo de sal seus esforços eram inúteis. Aldrich não podia parar com as palavras encantadas, do contrário o demônio não cederia, resistiria até arranjar uma maneira de se safar do círculo protetor. No fim do dia, no início da estrada, ele avistou uma silhueta conhecida. No lusco-fusco do fim da tarde, os olhos verdes de Jacque cintilavam como os de um gato. Depois de muitos dias, perguntando por Aldrich de aldeia em aldeia, de viajante a viajante, seguindo as pistas que todo mago deixa para trás, Jacque avistou a fumaça do vilarejo escondido e correu para ver o que aconteceu. Concentrado, Aldrich acenou para um menino que observava a agonia do demônio dentro do círculo e, por meio de gestos apressados, conseguiu que o pequeno levasse Jacque até sua casa. Foi quando o demônio tombou e deu os últimos estertores. A aldeia quase toda, que observava apreensiva, saltou quase ao mesmo tempo em gritos de júbilo, mal percebendo que Aldrich despencava num desmaio.

Talvez fosse esse a verdadeira causa da dor. A queda. Mas aquilo não importava mais. Quando acordou, Jacque estava ao seu lado, tocando suavemente sua testa com um pano úmido e conversando com uma das mais velhas da vila que, ao perceber Aldrich abrindo os olhos, correu para preparar um chá. No retorno, a velha testemunhou o beijo mais apaixonado e inquietante que já vira em toda a sua longa vida. Deixou o chá no criado-mudo ao lado da cama e saiu sem ser percebida.

Naquela noite, olhando as nuvens carregadas que logo despencariam numa torrente, Aldrich sentiu uma felicidade que lhe dava medo. Nada no mundo lhe trazia tanto medo quanto uma felicidade tão plena. Nem mesmo o pior e mais sulfuroso de todos os demônios. Sacudiu a cabeça com força, olhou novamente para o homem que se mexia lânguido na cama. E pediu aos deuses que o amanhã ainda fosse assim…

[Originalmente publicado em Quotidianos.]

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *