A princesa gordinha

 

Era uma vez um reino muito, muito distante, onde havia fartura e riqueza e um rei justo e pacífico. Este rei tinha uma filha que aproveitava muito bem da fartura das terras de seu pai, inclusive das magníficas padarias que soltavam de seus fornos aos montes os mais deliciosos quitutes, bolos, doces, salgados maravilhosamente gordurosos, cremes e chantilis e todo o tipo de guloseima.

E a princesa era gorda. Muito gorda.

Seu café da manhã consistia em 5 rosquinhas, 7 pães com manteiga amarela, frutas, bolo de chocolate ou café, leite quente com bastante açúcar. Logo vinha o almoço, sempre muito sortido, com todos os tipos de fritos e cozidos, picadinhos de carne de boi, costelas de porco, frangos assados e filé de carneiro.  No jantar,  sopas e cremes acompanhados por pães frescos e, na sobremesa, sempre havia sorvetes diversos.

E a princesa engordava. Muito.

Até que chegou aquela época da vida em que toda princesa é cortejada pelos príncipes vizinhos, na qual os salões dos castelos se enchem de cortesãos e logo as festividades do casamento real são preparadas, envolvendo todos os súditos para cerzir o vestido da noiva, aprontar as flores e as comidas, limpar os cantos dos aposentos reais e receber o novo príncipe. Porém, a princesa era gorda.

Muito gorda. E os príncipes que a viam fugiam correndo por léguas e léguas. E os boatos começaram a correr, a princesa ficará solteira e vai ficar louca, pois todas as princesas precisam de príncipes.

E a princesa ficou triste e desconsolada. Ah, por que eu sou tão gorda. E olhava para o pai, um balão de coroa, e para a mãe, que não ficava para trás. Ah, por que sou tão gorda e se olhava no espelho mágico, que ria quando ela aparecia na frente dele. Espelho, espelho meu, dizia ela, o que posso fazer para ter um príncipe que goste d’eu? E o espelho respondia, Oh menina tão gordinha, hihihi, aprenda primeiro a falar. Goste de mim é o jeito para você acertar. E ser gorda, minha menina, não está na moda. Peça a uma fada madrinha que reinvente a roda e te faça tão magrinha como uma garça pequenininha.

Então, o rosto da princesa se iluminou como a luz de dez mil velas. Bateu palmas três vezes e disse as palavras mágicas, então uma fada madrinha surgiu de uma ventania que atravessou a janela e balançou as cortinas dos aposentos da princesa. Minha linda menininha, disse a fada madrinha, quando nasceu vi nas estrelas que você teria um grande coração e por isso você também ficou imensa. Um coração grande não caberia num corpinho. Mas me diga, o que lhe entristece? Oh, fada madrinha, disse a princesa gordinha, não consigo um bom marido, nem mesmo nas terras mais distantes. Que posso fazer, se ser gordinha não está na moda.

Mas isso eu posso resolver, disse a fada madrinha, e num instante providenciou uma escova de dentes para a princesa. Que faço com isso?, perguntou a princesinha, olhando a escova como quem olha um dragão. Ah, minha princesa, você tem tanto prazer em comer que não queria lhe tirar essa alegria. Então faça assim para ficar bem magrinha: todas as vezes que comer muito, corra para o banheiro e enfie a escova na garganta. Vomite tudo que puder e o que não puder, depois corra dez vezes em torno do castelo e durma. Repita isso até que o espelho tenha inveja de tão fininha que você ficará.

Obrigada, minha fadinha!, disse alegre a princesinha. De nada, minha menina, disse a fada madrinha e num rodopio que apagou todas as velas do aposento desapareceu tão de repente quanto surgiu.

E assim a princesa fez. Comia como antes, mas todas as vezes que sentia a barriga quase explodir, corria até o banheiro mais próximo e usava sua escova de dentes. Enfiava na goela sem dó nem piedade até sentir a bile escorrer pelo canto da boca. Então punha o vestido mais pesado que tinha e dava dez voltas no castelo. Os pais da princesa começaram a se preocupar, pois a filha desaparecia antes do fim do jantar, recusava a sobremesa e voltava para a mesa suada e com cara de cansada.

Cada vez mais magra ficava a princesinha. Os boatos começaram a correr, como a princesa está emagrecendo, está cada vez mais fininha, mas não parou de comer, isso deve ser magia! E chegou um tempo no qual a princesa nem precisava da escova de dentes, chegava diante da privada real e vomitava alegremente toda a sopa, as carnes, os quitutes e guloseimas, e corria cada vez mais, em vez de dez eram vinte voltas. Um dia ela se olhou no espelho mágico e não se reconheceu. Seus ossinhos estavam aparentes, era apenas pele e osso. Espelho, espelho meu, agora que sou magra, linda e rica, algum príncipe vai querer ficar com eu? Ó, princesinha, hihihi, agora está tão magrinha que parece uma varetinha. Seus olhos estão tão fundos, parecem de um moribundo e sua gramática ainda vai mal, como um bife de porco sem sal. Mas não tenho boas notícias, ó rainha das delícias. Que foi, espelho meu? É que a moda das magrinhas passou, agora os príncipes querem as rechonchudas, então se ainda fosse gordinha…

Quê?, gritou a princesinha. Me acabei de vomitar durante quase dois anos, corri igual uma louca e agora você, espelhinho filho da puta, vem me dizer que as magras saíram da moda!

Então num golpe certeiro, a princesa rachou o espelho, rasgou as cortinas do quarto, botou fogo no castelo com seus pais dentro dele. Os súditos diziam, a princesa enlouqueceu, então ela tirou toda a roupa, montou num cavalo e saiu pelos reinos gritando e blasfemando contra as ditaduras da beleza. Mas estava fraca, a princesinha, tão fraquinha que não aguentou muito tempo. Antes de completar 21 anos foi encontrada morta e nua em cima do cavalo com uma placa pendurada no pescoço que dizia: EU ERA FELIZ E NÃO SABIA.

E fim.

[Originalmente publicado no site Quotidianos.]

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