O Espanador: Ele está de volta

O espanador: http://espanadores.blogspot.com.br/2015/02/ele-esta-de-volta.html

Por Juliana Leuenroth

“… mas então veio essa maravilha tecnológica do espírito criador alemão; então veio o mouse.
Eram raras as invenções tão geniais assim.
Move-se o aparelhinho na mesa e, exatamente no mesmo instante em que fazemos isso, uma mãozinha se movimenta na tela. E caso queira tocar em um ponto do monitor, é só apertar o tal do mouse, e logo a mãozinha toca o ponto escolhido na tela. (…) Contudo, provou-se que aquele aparelho era um híbrido impressionante. Podia-se escrever com ele, mas também era possível, por meio de uma rede de fios, entrar em contato com todas as pessoas e instituições que também estivessem de acordo. Além disso – diferente do aparelho telefônico -, muitos participantes nem mesmo precisavam sentar-se diante do computador, apenas deixavam lá coisas para outras pessoas terem acesso na sua ausência, o que todos os comerciantes faziam.
(…) Essa tecnologia maravilhosa chamada ‘inter-rede’, ao contrário, oferecia simplesmente tudo a qualquer momento do dia e da noite. Tudo que tínhamos que fazer era buscar num dispositivo chamado Google e apertar o resultado com aquele aparelhinho fantástico: o mouse. E não demorei muito a perceber que, de qualquer forma, eu sempre caía no mesmo endereço: uma obra de consulta protogermânica chamada Wikipedia, fácil de reconhecer como um neologismo que mistura enciclopédia e o velho sangue explorador germânico dos vikings.”
pgs 99 e 100

Numa tarde ensolarada Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Começa a vagar por uma Berlim bem diferente da que conhecia. Acontece que o soninho do füher foi um pouco mais longo do esperado: ele acorda em 2011. Este é o mote de Ele está de volta.


O livro é narrado em primeira pessoa e vamos acompanhando o ditador durante sua descobertas e desventuras no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo que isso é divertido, devo confessar que é também um pouco cansativo… O füher é um tanto verborrágico e às vezes escreve um pouco demais. Mas já falou um pouco melhor sobre isso…

Bom, então Hitler está andando pelas ruas de Berlim, de uniforme militar e o indefectível bigodinho e aparentemente muita gente parece não se importar, o que já causa um certo estranhamento. Mas vamos lá… Ao se aproximar de uma banca de jornais, o dono fica intrigado com a figura e resolve ajudá-lo. Considera que o homem é um ator muito bom, que não sai de seu papel de jeito nenhum (escola Daniel Day Lewis de interpretação, quem sabe…). Como conhece um produtor de TV a cabo, resolve apresentá-lo para, quem sabe, descolar uma vaguinha de chanceler alemão num programa…

O plano dá certo e Hitler acaba virando atração principal de um programa de humor, além de webcelebrity, com seus discursos inflamados no Youtube. De fato o enredo é criativo ao usar esse recurso da internet, onde há público para todos, inclusive para seres das trevas megalomaníacos e ególatras.

E boa parte dos momentos engraçados do livro se dão em razão desta fama meio estranha (há claro, aqueles que criticam a paródia de Hitler, mas a maioria, principalmente a juventude, parece adorar o bigodudo). Um dos pontos altos é quando ele resolve fazer uma visita gravada ao partido nazista.

O füher acredita que através da TV/internet (já que a rádio já não é mais tão eficiente como nos anos 40) conseguirá recuperar o seu poder. Seu quadro de humor, então, é um discurso em que comenta a situação atual da alemã e como ela foi corrompida, em todos os sentidos, pelos turcos.

Aí voltamos ao que falei um pouco mais acima neste texto. Apesar do estranhamento com a modernidade e algumas opiniões sobre a política atual serem divertidas (ainda que sejam de arrepiar), outras parecem um pouco mais complexas. E daí vem as longas explicações, os contextos históricos… O que torna a leitura um pouco mais lenta.

É compreensível a necessidade de algumas dessas explanações, afinal os leitores (aqui sem subestimar ninguém, por favor) não devem ser especialistas em política e história alemã. E sem elas, o livro faria sentido e graça apenas para os alemães… Ainda assim, confesso que algumas passagens foram arrastadas.

No final do ano foram divulgadas algumas imagens do filme baseado no livro que já está em produção. E devo admitir que pode ser um bom mote para o cinema. Mas fico curiosa para ver como eles farão para transpor justamente esses momentos mais maçantes para as telas. Ao fazê-lo, podem meter os pés pelas mão e fazer da comédia algo bem chocho, ou abrir a mão disso e tornar uma coisa rasa… Vamos ver.

Ele está de volta
Autor: Timur Vermes
Tradução: Petê Rissatti
Editora Intrínseca

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