A tradução como ela é – a objetividade na avaliação de uma tradução

Acredito que mexo num vespeiro quando trago à tona esse tema, ainda mais porque não me aprofundarei demais neste post, porém não venho sozinho. Recorro a dois teóricos e práticos-teóricos da tradução para corroborar ou fundamentar algumas  ideias sobre como ser objetivo – ou ao menos ter a objetividade como um dos parâmetros – ao avaliar uma (na maior parte das vezes a nossa) tradução. Parece uma tarefa simples, mas na realidade não é. Pois que régua deve ser usada quando se avalia uma tradução, partindo do princípio de que o tradutor é um construtor de sentidos e não apenas um reprodutor de textos? E quais regras ou parâmetros podemos tomar se, para produzir esses sentidos, todo tradutor lança mão de diversos expedientes, de sua bagagem cultural e linguística e deve observar condicionantes culturais, políticos, sociais, ideológicos, econômicos, etários, enfim, uma infinidade de restrições, limitações, ponderações e elementos um tanto subjetivos que se apresentam no momento de fazer uma escolha?

Não é simples, certo? Mas precisamos ter um ponto de partida que não seja gosto, preferência. Do contrário, se editores fôssemos, apenas quem tivesse gostos e estilo parecidos traduziria nossos livros. Como não somos, vamos pensar numa maneira de começar a visualizar o outro lado, ou seja, pensar como a pessoa que avaliará e escolherá um tradutor entre muitos. Isso pode nos ajudar a fazer escolhas mais ponderadas, a tentar ampliar nosso repertório e nos tornarmos tradutores melhores. Se nada disso acontecer, ao menos botamos a cabeça para funcionar um pouco, e isso já vale muito.

Paulo Henriques Britto, no seu livro A tradução literária (Civilização Brasileira), comenta o seguinte:

“(c) não só podemos como devemos avaliar criticamente traduções com um certo grau de objetividade. Em suma, sustento que as metas básicas que norteiam a atividade tradutória desde sempre são essencialmente corretas, ainda que por vezes sejam norteadas por princípios insustentáveis, e que as críticas levantadas por alguns teóricos contemporâneos, ainda que partam de pressupostos corretos e desmitifiquem certos preconceitos, tiram conclusões incompatíveis com práticas responsáveis de tradução – e, paradoxalmente, por vezes até mesmo voltam, por caminhos tortuosos, a alguns dos preconceitos originais que visavam combater.” (p. 28)

Considerando este trecho, podemos começar a tatear o que nortearia uma tradução “de verdade”. De verdade entre aspas, pois em geral não existe uma tradução certa, mas existe a errada: sendo o sentido algo volátil e sujeito a interpretações variadas, cada tradutor o transporá de forma diversa. E uma dessas formas pode, sim, estar equivocada em algum âmbito, seja contextual, gramatical, conteudístico etc. Isso não invalida sua tentativa de traduzir, mas aquela imprecisão pode (e deve) ser corrigida, salvo se o tradutor tiver um motivo para aquele erro (o que podemos discutir em outro momento).

Tradução também pode ser considerada uma reenunciação, ou seja, um novo dizer de algo já dito, muitas vezes permeado pela voz do tradutor, pois ele é um construtor de sentidos. Segundo Herber de Oliveira Costa e Silva, no seu Tradução e dialogismo: um estudo sobre o papel de tradutor na construção de sentido (Editora da UFPE), a tradução mantém as características de todo enunciado:

“orienta-se tanto para o já-dito (…) quanto para o seu leitor (que não é alguém passivo, mas um sujeito projetado com quem o tradutor dialoga, antecipando suas questões e seus comentários, construindo seu texto também em forma de diálogo em cima dessas réplicas)”. (p. 23)

 No entanto, a voz do tradutor, por mais que esteja impregnada em toda tradução, não deve se sobrepor à voz do autor, pois o que se espera de uma tradução é “quase a mesma coisa” (para lembrar o livro de Umberto Eco): o leitor acredita que está lendo o autor traduzido, e não o tradutor. E como uma das regras do jogo da tradução (como chama PHB em seu livro) é que essa emulação seja verdadeira, sem interferências maiores do que as necessárias durante o processo tradutório, tudo que foge a esse parâmetro não pode ser considerado tradução.

 [Não estamos aqui falando de experimentalismos, mas sim de uma tradução que será consumida. Temos em mente uma tradução que tenha um público-alvo definido, que será avaliada por um editor e, posteriormente, publicada e comercializada.]

 Para finalizar este texto (mas nunca a discussão), a questão de fidelidade é essencial para o que temos aqui em mente quando falamos sobre avaliação de tradução. Este conceito muitas vezes é erroneamente demonizado entre os tradutores, pois confunde-se com o que chamamos de tradução literal ou “palavra por palavra” (que pode ter sua serventia, mas não para o nosso caso). O que entendo por fidelidade é a emulação das características intrínsecas do texto-fonte na recriação textual que forma a tradução. Levando em conta que temos como baliza um original em outro idioma (e nada tenho contra essa palavra, que designa a origem da qual retiro o material da recriação) para “remontá-lo” no português, nada mais sensato que recriar também as filigranas, os meandros, as idiossincrasias e ambiguidades, na medida do possível, dentro da tradução. Na minha opinião, trai o texto, o autor e o leitor quem abusa da imaginação em detrimento do texto do autor, ignora as diferenças e o estilo de quem escreveu a obra, passa um rolo compressor sobre o que diferencia um texto do outro. Pode parecer tacanho a primeira vista, mas temos a missão de trazer ao leitor o texto que foi escrito pelo autor, reproduzindo o impacto deste último.

Nesse ponto, tudo se resume a isso: a tradução pertinente reverbera o impacto que o texto-fonte teve sobre os leitores do idioma original.

Em outra oportunidade, comentarei mais detidamente sobre alguns pontos, e gostaria também de ouvir vocês. Gostaríamos que o Ponte de Letras também fosse um espaço de discussão entre tradutores, estudantes e apaixonados pelo ofício. 😉

4 Comentários A tradução como ela é – a objetividade na avaliação de uma tradução

  1. naneteneves 3 de novembro de 2014 at 16:02

    Acabo de ler o “Minhas lembranças de Leminiski”, do Domingos Pellegrini, e ele abordou essa questão ao falar das traduções feitas pelo “Polaco”. Muito bom teu post, Petê

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    1. Petê Rissatti 3 de novembro de 2014 at 16:46

      E Leminski era meio maluco nas traduções, não? 😉 Beijo, Nana, obrigado pelo comentário.

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  2. Regina Lyra 3 de novembro de 2014 at 22:13

    Muito bom, Pete! Concordo plenamente, sobretudo com o seu conceito de re-enunciacao. So meio que discordo num ponto: acho que o texto tem vida propria, e a nossa fidelidade deve ser mais a ele que ao seu autor. O texto e de quem dele se apropria, ou seja, do leitor, muito a semelhanca de um quadro ou uma escultura. Reproduzir o impacto causado no leitor da lingua fonte e, sim, o grande segredo da traducao literaria de qualidade. Bjo!

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    1. Petê Rissatti 4 de novembro de 2014 at 07:46

      Oi, Regina, muito obrigado pelo comentário. Sobre nossa meia discordância, sou da opinião de que temos um compromisso com o autor quando fazemos uso de uma criação dele para recriarmos o nosso texto, que é de trazer a obra dele para o português. Porém, esse compromisso não seria de uma fidelidade cega, mas mais como uma parceria: o que há de “ideia” vem dele, o que é de recriação (ou re-enunciação) vem da gente. Mas concordo quando você diz que o texto adquire vida própria, a partir do momento da transposição e além, quando o leitor se apropria da obra e faz dela a interpretação que deseja ou que lhe é possível. E a fidelidade que acredito ser necessária é essa do impacto: trazer as sensações e emoções que o texto da língua fonte causou em seus leitores. Beijo!

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