Tradução técnica e tradução literária?

Já me perguntaram algumas vezes qual é o tipo de tradução mais complicada: a técnica ou a literária. Costumo não pensar a tradução partindo desses parâmetros tão estanques, visto que a operação feita em ambos os casos exige (não que sempre haja, mas exige) conhecimentos profundos de língua, cultura, vocabulário, época etc. Impossível desincumbir-se da tarefa tradutória sem lançar mão do próprio repertório, de pesquisas e outros elementos necessários ao exercício da profissão.

Ou seja, cada tipo de tradução classificado segundo tal dicotomia (técnica versus literária, até quando, minha gente?) tem suas dificuldades e especificidades.

Sou tradutor técnico, da área jurídica/societária, algo bastante específico. Já fiz, lá no início da carreira, quando muito do que caía na rede era peixe mesmo, algumas traduções de maquinário, como uma máquina de ordenha de ovelhas e um picador/embalador automatizado de aves. Fiz muita pesquisa e estudei muito para conseguir dar um jeito nessas peripécias. Não foi fácil, mas o cliente ficou satisfeito.

E também sou tradutor editorial (termo que prefiro a tradutor literário), trabalho com textos de ficção e não ficção, e não estudo ou pesquiso menos por isso. Tomo muito baile para encaixar as frases, dar ritmo, formas mais bonitas ao texto. Faço tudo com esmero para entregar ao editor um texto bom, indico trechos que podem ser problemáticos e dou asas, muitas vezes, ao meu lado escritor.

E aí está a diferença.

Estava comentando exatamente isso com a Renate Müller, experiente tradutora da área médica e que em breve terá seu primeiro livro não-técnico lançado. Na tradução técnica, os voos são muito mais bem orientados, limitados por terminologia e fraseologia muito próprias. Claro que, em muitos momentos, a criatividade é exigida dos tradutores técnicos, claro que os condicionantes culturais influenciam na hora de decidir que caminho tomar; penso de pronto no pessoal que traduz folhetos de produtos cosméticos ou marketing de equipamentos de som, o quanto é necessário se esticar para chegar a um texto mais atraente para o futuro cliente do cliente.

Mas, ainda assim, essa tradução segue um padrão, uma terminologia. O que muitas vezes não acontece num texto literário. Ou pior, acontece: o personagem daquele romance policial é um engenheiro mecânico e toda trama se desenrola segundo as porcas e parafusos do sujeito. Ou, caso vivido pela Flávia aqui do Ponte de Letras, um romance que envolvia bancos, bolsas de valores, títulos e ações, queda e alta etc. Além da pesquisa de termos financeiros e consultar colegas, também teve de dar conta de nuances e entrelinhas do texto literário, das emoções e sensações, da caracterização de personagens, do linguajar de muitas partes de Londres e de uma infinidade de outras coisas que exigiram um grande esforço.

Por isso a minha postura é a seguinte: tradução é tradução, ponto final. Se editorial ou técnica, a tarefa (ou desistência, Herr Benjamin?) sempre apresentará dificuldades. Em maior ou menor grau.

11 Comentários Tradução técnica e tradução literária?

  1. Roney Belhassof 4 de Fevereiro de 2014 at 11:18

    Fugirei de dizer se acho essa ou aquela tradução mais difícil pois não sou tradutor, no entanto escrevo textos técnicos e literários e, em minha humilde opinião, o técnico é mais “fácil” pois o literário nos provoca a testar os limites da nossa capacidade de ver as coisas e as pessoas a partir de diversos pontos de observação, diferentes culturas e perfis psicológicos.

    Ao traduzir um texto literário imagino que se encontrem as mesmas dificuldades, mas são dificuldades gostosas que nos modificam para melhor.

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    1. Petê Rissatti 4 de Fevereiro de 2014 at 11:27

      Oi, Roney,

      Talvez pelo viés da escrita faça sentido, pois o escritor literário precisa dar saltos que o escritor técnico não precisa, pois tudo depende do seu conhecimento do assunto. Muitos escritores técnicos nem mesmo escrevem, têm equipe que escreve bem e ele fornece o conhecimento (sim, há ghost writer para tudo nessa vida). Agora, na tradução, muitas vezes o tradutor que está diante de um texto técnico precisa primeiro estudar aquelas informações e encontrar uma maneira para transpor aquilo para o idioma de chegada, tarefa que sempre é mais ou menos complexa. A diferença para o tradutor literário/editorial é o que ele vai usar de imaginação (ou seja, da sua própria visão de mundo) dentro de um determinado texto.
      😉

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  2. Augusto 24 de Fevereiro de 2014 at 12:27

    O tradutor literário (ou editorial, se prefere chamar assim) é mais criativo? Talvez seja, mas ele tem mais liberdade. Ninguém vai nem se coçar se seu texto ficar algumas linhas mais longo. Já o tradutor técnico tem menos liberdade, o comprimento de seu texto é muitas vezes limitado, e aqui afirmo: haja criatividade, jogo de cintura e talento idiomático para encaixar uma frase em português onde estava antes uma frase, por exemplo, em alemão, que pela natureza desse último idioma era bem mais curta. Tradutor técnico não precisa dar saltos? Não é bem assim. Vivo dando tanto salto que as pernas já doem. Ou não é “dar saltos” se deparar diariamente com palavras novas inventadas por engenheiros e técnicos “desvairados” que, mais criativos que muitos poetas, não pensam nas consequências de seu “desvairamento”. E acredite, Petê Rossatti, tenho sim que usar muito de imaginação para imaginar o se está querendo dizer, o que nem sempre é claro, o que nem sempre está realmente escrito. Eu não acho que haja tradução mais ou menos complicada, mais ou menos criativa, mais ou menos isso ou aquilo. O qué há são áreas diferentes, público-alvo diferente, necessidades diferentes e, consequentemente, tarefas diferentes. Mesmo traduzindo textos técnicos, faço mais do que repetir as informações como um papagaio digitalizador e faço mais que encaixar terminologia em frases técnicas “simples”. Também eu zelo por um bom estilo, também tenho que encaixar frases e ser bastante criativo. E até hoje espero por um padrão realmente padronizado que eu possa seguir, pois isso facilitaria muitíssimo meu trabalho… 😉

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    1. Petê Rissatti 24 de Fevereiro de 2014 at 18:39

      Olá, Augusto,

      Muito obrigado pela sua contribuição. Talvez eu não tenha me expressado direito, mas em momento algum eu disse (e nunca direi) que o tradutor técnico dá menos saltos ou não dá saltos para desincumbir-se de suas tarefas, muito pelo contrário: sou tradutor técnico também e sei como as coisas são. Inclusive, como você mesmo menciona, já passei por bons bocados com o idioma alemão. Porém, o tradutor técnico, apesar de lidar com textos ruins (muitas vezes escritos por não nativos), lida muito menos com nuances, níveis de linguagem, experimentações e afins. Por isso falei sobre os saltos, muitas vezes às cegas, que os tradutores editoriais-literários precisam dar. Nem por isso há maior dificuldade nesta ou naquela tradução (o que também repiso no meu texto), mas sim propostas e abordagens diferentes para cada tipologia textual. No mais, em tradução, cada calo é um calo e dói de maneira diferente em cada um. Obrigado novamente pelo comentário e desculpe se dei uma má impressão.

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      1. Augusto 25 de Fevereiro de 2014 at 18:10

        Não vejo motivo para se desculpar, Petê. Texto é assim mesmo. Dá margens de interpretação. Mas sabe qual é a desvantagem (ou talvez vantagem?) da tradução técnica? O nome do tradutor normalmente não aparece em lugar algum. Você trabalha um tempão nunca coisa e ninguém (fora você mesmo e o cliente) sabe que foi você que vez. É um anonimato às vezes meio frustrante. E uma vantagem da tradução técnica são as repetições, coisa que o tradutor literário/editorial deve ter raramente ou nunca. Acho que tudo na vida tem suas vantagens e desvantagens, ou melhor, suas diferenças 😉

        Parabéns pelo blog. Ainda não tive tempo de ler muita coisa, mas gostei do que vi até agora.

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  3. Renato Motta 6 de Março de 2014 at 13:04

    Excelente texto, Petê. Concordo que é tolice tentar “encaixotar” áreas de atuação, separando-as por dificuldade ou importância. Nunca vi ninguém discutir se o neurologista é mais importante que o cardiologista, nem se é mais difícil ser nefrologista ou ortopedista. Médico é médico… Tradutor é tradutor.

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    1. Petê Rissatti 6 de Março de 2014 at 13:08

      Renato,

      Que prazer ter você por aqui! E é isso mesmo, você foi direto ao ponto que eu quis abordar desde o início: tradutor é tradutor. E cada texto apresenta dificuldades diferentes, nuances e problemas que a gente só fica sabendo quando ataca o bendito. Um abração meu e de todo o pessoal do Ponte de Letras. 😉

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  4. Beatriz 8 de junho de 2014 at 14:10

    Eu gostaria de saber se para ser tradutor de textos jurídicos, por exemplo, é necessário cursar direito. Como se adquire o vocabulário necessário? Sou estudante do terceiro ano do ensino médio e gostaria de saber mais sobre a área de tradução, como posso conseguir mais informações?

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    1. Petê Rissatti 8 de junho de 2014 at 16:38

      Olá, Beatriz,

      Em primeiro lugar, agradecemos seu comentário. É muito bom e estimulante ver pessoas já nesse período se preocupando não apenas com terminar a escola e entrar numa faculdade, mas o que fazer e como.
      Agora, respondendo à sua pergunta: não é necessário cursar direito para ser tradutor de textos jurídicos, mas ajuda muito a fazer mais tipos de textos. Em geral, quem não é advogado e traduz a área jurídica concentra-se na área contratual e societária (empresarial), cuja quantidade de oferta de trabalhos é bastante grande. Há alguns cursos de tradução e terminologia jurídica no mercado, na faculdade de tradução vemos vários tipos de tradução em aulas de prática, inclusive essa parte jurídica, mas não é muito. Além de cursos, é possível estudar bastante por conta própria, tirar dúvidas com colegas de profissão mais experientes e, assim, começar a galgar alguns degraus. No Facebook há algumas comunidades para tradutores iniciantes e há uma infinidade de blogs que ajudam a entender melhor o mercado. Dá uma olhadinha aqui no Ponte de Letras, à direita. Há alguns blogs bacanas com muitas informações pertinentes.

      Um abraço e boa sorte!

      Petê

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  5. Felipe Oliveira Pereira 27 de setembro de 2014 at 19:57

    Excelente o trocadilho com o Walter Benjamin 😉

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    1. Petê Rissatti 27 de setembro de 2014 at 22:00

      Ele acertou em cheio em duas coisas, Felipe: na nossa sensação diante da tarefa e, com sua “Aufgabe”, a sua tarefa-desistência, nos mostra como a tradução vai além do que muitos pensam. Obrigado pela visita e pela leitura. 😉

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