360: mais do que eu esperava

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No fim de semana finalmente retomei um ótimo hábito: ir ao cinema. Há tempos não ia, às vezes por preguiça, outras vezes pela loucura do dia a dia. E fiz uma ótima escolha: 360 (Reino Unido/Áustria/França/Brasil, 2011), filme independente de Fernando Meirelles. Um conto cinematográfico, levemente inspirado na peça Reigen (Ronda), do escritor e dramaturgo austríaco Arthur Schnitzler que, à época da primeira apresentação em 1920, causou grande escândalo por retratar em cores fortes e eróticas a moral da sociedade do fin de siècle. Seguindo o esquema do escritor, Meirelles parte e termina o filme na Viena natal de Schnitzler. Após o “cano” que Michael Daly (Jude Law) dá na prostituta eslovaca Mirka (Lucia Siposová), uma verdadeira ciranda se estabelece entre perfeitos estranhos: Rui, o aspirante a fotógrafo brasileiro (Juliano Cazarré), Rose, a mulher de Daly (Rachel Weisz), Laura, a namorada de Rui (Maria Flor, que me surpreendeu), John, o pai a procura da filha (Anthony Hopkins) e outros personagens que se ligam não mais para representar a moralidade (ou a falta dela) numa sociedade do século XIX, mas sim mostrar como estamos todos conectados da maneira mais impensável. E como tudo nessa vida é circular.

Não ouvi muitas críticas ao filme e, as que ouvi, em geral não foram tão positivas. Apesar do esforço da mídia em promover bem o filme, parece que a cri-crítica está vencendo a briga. Um exemplo foi o comentário que ouvi na poltrona ao meu lado quando o filme acabou: “Ele fez esse filme pra ganhar dinheiro”.

Oi?

O próprio Meirelles disse algo muito acertado: esse não é um filme de arte, mas também não é o filme que atingirá o grande público. E voltamos à velha discussão daqueles que empinam e torcem o nariz quando um filme brasileiro se pretende mais comercial. Quando um escritor se aventura e vende milhares de exemplares vira alvo de uma chacota invejosa. José Paulo Paes, no livro A aventura literária (Cia. das Letras, 1990), traz um texto excelente chamado “Por uma literatura de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)” que, mesmo tendo algumas afirmações um pouco desatualizadas pelos seus mais de 22 anos de idade, ainda apresenta muito ao que a crítica e o próprio escritor devam atentar. Produtos culturais de massa ou que satisfaçam não apenas uma ou outra classe, mas que de alguma forma atraiam muito mais que meia dúzia de três gatos pingados, são cada vez mais necessários. Como ressalta Paes, ao fazer um paralelo entre o sucesso das telenovelas e o pouco fôlego dos livros no Brasil:

Para ser fruído, o livro, mesmo de entretenimento, exige um mínimo de esforço intelectual, dispensável no consumo da imagem falada do vídeo.

Então, coloque na sua lista: 360.

2 Comentários 360: mais do que eu esperava

  1. Laura Fuentes 13 de agosto de 2012 at 10:10

    É, o suceso incomoda aos mediocres, vide o comentário da pessoa ao seu lado no cinema depois do filme. Sou fã do Meireles sobretudo porque ele arrisca. Fiquei curiosíssima para ver o filme agora.

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  2. Ricardo Delfin 13 de agosto de 2012 at 23:28

    Não assisti, mas o Fernando Meirelles merece uma conferida.

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