A voz

Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.

4 Comentários A voz

  1. Martha Gouveia da Cruz 21 de julho de 2011 at 10:15

    Petê querido,
    Você já sabe que gosto muito de seus escritos. Agora também posso dizer que sua “voz literária” me agrada.
    Continue escrevendo assim.
    Não sou autora, nem crítica literária, ou poeta. Sou uma simples leitora, e acho que os livros (os textos) se destinam a nós, leitores, que lemos e gostamos e, muitas vezes, não sabemos nem dizer porquê.

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  2. Patrique Riepe 21 de julho de 2011 at 15:34

    Acho que essa sua questão cai em dois grandes blocos de pensamento: 1) será que você está agradando todo mundo/será que é necessário que você agrade a todos; e 2) qual é o grande problema de você escrever assim ou assado cozido frito? O que os outros têm com o SEU escrever?

    Quando eu decidi ler o único livro de Saramago que eu li na vida, me deparei com uma escrita completamente diferente de tudo o que eu tinha lido. Sempre li livros que estruturam o diálogo utilizando parágrafos, travessões e/ou aspas. Mas o estilo de escrita em texto corrido que Saramago escrevia é completamente diferente! Confesso que demorei um pouco pra me acostumar, mas não desisti só por causa desse empecilho. Se o tivesse feito, teria perdido uma das melhores leituras da minha vida.

    Sugiro que você faça o mesmo. Acho que muito do escrever vem do pensar; por sua vez, vem todo do ser. Portanto, você escreve aquilo que você é. Não deixe ninguém te dizer que você deve ser diferente de você mesmo.

    Me identifiquei muito com o seu post, até porque já me fiz o mesmo questionamento. Somos pessoas que escrevem em diferentes mídias, pra diferentes públicos, seja um texto de uma prova ou trabalho, um post no blog, um recado num rascunho, um tweet. Eu mesmo já escrevi diversas coisas que são completamente distintas umas das outras, em estilo, linguagem conteúdo… E aceitei essa pluralidade que habita em mim! E viva a diversidade!

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  3. Vladimir Golombek 23 de julho de 2011 at 06:36

    A voz literária sempre vem de dentro, me parece. Até pela escolha de ouvir ou não uma ou outra voz de fora, ao que dar atenção e o que isso se torna depois de ter vagado por dentro da sua alma literária. O que não pode se controlar é o que acontece com a voz literária no olhar ou ouvido dos outros.

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  4. cristina carvalho 11 de outubro de 2011 at 21:12

    Com ou sem gravata, laptop ou prancha de surf a tiracolo, você escreve bem pá caralho! E salve o es-CRICRI-tor, “onde” deus fez a morada, oiá!

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