Quem mexeu no meu texto?

Já comentei aqui sobre a eterna briga entre tradutores e preparadores/revisores, sobre mandos e desmandos e sobre brios e sentimentos feridos. Uma das conclusões às quais cheguei (corroborada por diversos comentários aqui e ao vivo) é a de que a solução seria um trabalho conjunto (sinérgico, como gosta o pessoal da administração e afins) do início ao fim do processo editorial. Inclusive comentei que já houve tentativas, mas não soube se foram bem sucedidas.
O que vejo ainda é um sistema estilo Escravos de Jó: um põe o texto, outro tira, outro põe, o próximo tira, sem que as pessoas se relacionem de verdade. Não há troca, essa atividade humana tão benéfica, mas apenas assunção (ou entrega) de responsabilidades (ou de acusações). Foi o tradutor, ou o preparador, às vezes o editor ou o revisor… e não há uma discussão sadia. Mas quando o livro aterrissa na livraria começam os ataques e a pancadaria. Estou para ver um mea culpa nesse jogo, de qualquer lado. Difícil, não é?
Não seria se, a fogueira não fosse de vaidades e apenas aquecesse, sem chamuscar os envolvidos. Por isso é imprescindível que os papéis sejam repensados e que o limite de cada elemento no processo de feitura de um texto seja bem delineado, sem que haja coibição da criatividade de ninguém. Funções estabelecidas, próximo passo seria a conscientização de todas as partes interessadas: tradutor faz um trabalho decente, preparador se esmera em deixar o texto redondo sem descaracterizá-lo, revisor toma conta da parte mais técnica e editor/cliente/agência (de preferência com o tradutor) dá a palavra final, bate o martelo e publica ou entrega ao cliente final. Sei que não é tão simples, uma situação praticamente ideal, mas acredito que se todo mundo estiver no mesmo ritmo, acreditar que o barco é um só, ninguém vai querer remar contra.
Que vocês acham?

(Eu acho que agora eu vou tomar porrada… Vai vendo…)

5 Comentários Quem mexeu no meu texto?

  1. Luca 4 de Maio de 2011 at 10:13

    A metáfora do “Escravos de Jó” foi felicíssima! haha
    Vou usar aqui no trabalho (citando a fonte, claro).

    Sabe, Petê, percebo que se tivermos um bom editor (às vezes ele deve ser um centralizador, um autocrata), grande parte dos problemas se vão. Uma pessoa que direcione o serviço exatamente pra onde ele quer, que seja respeitado e temido. rs. Aí, penso, todos os colaboradores trabalham bem.

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    1. Petê Rissatti 4 de Maio de 2011 at 11:30

      Lucas,
      Não acredito no temor, mas no respeito e na admiração. Quando trabalhei na Siciliano, tive um chefe chamado Roger Trimmer, que hoje está na Longman (eu acho). Uma das pessoas mais doces e compreensivas que já encontrei nesse mercado e, ao mesmo tempo, admirável, culto, divertido e paciente. Me ensinou muito, muito mesmo, sobre a profissão e sobre o amor pela palavra. Não há um colaborador dele que não o elogie sempre. É nisso que acredito.
      Abraço!

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  2. Maria Ines Correa Nascimento 4 de Maio de 2011 at 11:08

    Oi, Petê

    Muito pertinente o post.

    Primeiro, destaco parte do ótimo comentário do Daniel Estil no outro post sobre o assunto:

    “Só acho que as editoras poderiam ter o hábito gentil e respeitoso de, antes de mandar imprimir, enviar o arquivo com as marcas de revisão ou mesmo as provas revisadas para o tradutor.”

    Num “mundo perfeito”, seria (parte da) solução. Mas não é o que acontece e, sinceramente, acho difícil que aconteça, principalmente nas editoras que trabalham com livros técnicos (tempo, tempo, tempo…).

    Como trabalhei uns poucos anos como tradutora dentro de uma editora, acompanhei de perto o ritmo frenético da “cadeia editorial” de um livro. É punk mesmo. Eu era ‘apenas’ uma ponta, mas lá eu tinha a chance de ver as alterações feitas na tradução e discuti-las não só com a revisora científica (médica), como também com os revisores internos. Funcionava que era uma beleza, mas era uma editora de pequeno porte e eu estava ali todos os dias.

    Nunca tive o hábito de ver minhas traduções depois de publicadas, até porque os livros de medicina ficam fechados (com plástico) nas livrarias. Porém, recentemente tive acesso a um deles – uma obra importantíssima -, e uma colega me alertou sobre erros medonhos de revisão. Fui checar (apavorada) meus capítulos, e a surpresa foi grande e triste: a quantidade de erros “em cima do que estava certo anteriormente” era imensa. Erros de ortografia inclusive. Vírgulas colocadas incorretamente, apostos ignorados, partes modificadas ao estilo “estava certo, mas mudou-se assim mesmo” que nada acrescentaram em termos de qualidade ao texto.

    O problema é que o ‘meu’ nome estava no crédito desses capítulos, e foi aí que pegou para mim. Se meu nome está nos créditos de tradução daquele capítulo x, com a minha formação embaixo, me ‘responsabilizando’ por um texto cheio de erros (muitos deles ortográficos), como é que fica a minha imagem, a minha credibilidade como profissional? (E não foi só comigo. Outros colegas que participaram da tradução da obra também se queixaram da mesma coisa.)Como poderei me ‘defender’ disso? Como poderei justificar? E cadê o nome do revisor (científico ou não) embaixo de cada capítulo? Fica parecendo que a lambança é obra do tradutor! E, no caso de uma obra prima de texto, por que não os louros serem divididos com o revisor também? – sejamos justos e coerentes.

    Solução? Cotejar o meu original com o livro pronto e literalmente marcar os exemplos de incorreções; marcar reunião com a editora; conversar e tentar chegar a uma solução para obras futuras. O problema? O de sempre: falta de tempo. Ou bem eu trabalho, ou bem faço esse trabalho de formiguinha, cotejando dezenas de capítulos para elaborar um relatório final a ser entregue à editora durante a conversa.

    Já fui revisora, Petê… Já estive “do outro lado” e sei bem como funciona essa cadeia de produção do livro. Eu vivia um mantra constante de “mudar quando fosse preciso” e, principalmente, ter a certeza do que estava fazendo. Assim como tradutor não pode “achar” que a tradução de um termo x está correta e, sim, pesquisar e ter certeza antes de decidir, o revisor também deve fazer o mesmo. Ninguém está isento de ter dúvidas, de falhas, de inseguranças… Ninguém é perfeito ou sabe tudo… É preciso, sim, humildade de ambas as partes. É preciso continuar a estudar sempre, pesquisar até a certeza!

    Lembro de como era bom sentar com a revisora científica e ver as correções técnicas que ela fazia nas minhas traduções médicas. Ali certamente aprendi, digamos, 80% do que me tornou a tradutora médica de hoje. Foi estudando em cima das minhas dúvidas e dos meus erros que aprendi MUITA coisa! Não dá para ficar encastelado numa posição e achar que está certo “porque está”.

    É, como você disse, estar no mesmo barco tendo como objetivo final o melhor produto possível. Mas, para tanto, os profissionais envolvidos na cadeia produtiva precisam conversar e interagir mais.

    Valeu, Petê. Ótimo assunto. Espero que renda um debate bom e saudável para todos.

    Beijão!

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    1. Petê Rissatti 4 de Maio de 2011 at 11:25

      Min,
      Não é impossível isso acontecer. Porém, ainda é bem difícil. Por acaso aconteceu comigo, em breve farei a última leitura de uma tradução minha antes de ela ser publicada. Não apenas por conta das dúvidas, mas a editora (dando nome aos bois, a Tinta Negra Bazar Editorial) quer que eu aprove o que foi alterado. E não sou um grande nome na tradução, pois já ouvi, inclusive de um desses figurões, que praticamente tudo que ele traduz é relido por ele no fim do processo editorial. Não é uma beleza? Foi algo que ele conquistou com anos de ralação e agora “perde” esse tempo para que tenha orgulho de dizer: eu traduzi!
      Um beijão e é sempre bom ler você por aqui.

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  3. Laura Fuentes 9 de Maio de 2011 at 17:27

    Não vai tomar porrada, não, amigo. Tenho certeza que muita gente vai é te apoiar porque é legítimo o desejo de um mundo ideal em que todos possam trabalhar em equipe e todos se respeitando.

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