Mãe é mãe

Já falei de outro livro de Bernardo Carvalho aqui (O sol se põe em São Paulo), numa resenha muito breve. Foi o primeiro livro que li dele, gostei muito. Mas não se compara ao que encontrei em O filho da mãe, da coleção Amores Expressos (Cia. das Letras), lançado faz um tempo e que ficou na fila esperando leitura. Se eu soubesse, teria furado a fila e começado por este livrinho enorme. Enorme porque Carvalho, com sua ficção vigorosa e enxuta, trata de dois temas universais: mãe e guerra. Seja na Rússia ou em qualquer lugar onde o texto nos leve, não há como não se envolver com as personagens do autor, construídas com muito detalhe, até mesmo aquelas que se prestam a coadjuvantes da trama. São diversas histórias que se encontram nos erros e acertos, no desespero e na luta pela sobrevivência das mães que perdem seus filhos na guerra e, novamente, poderia ser na guerra do Golfo ou numa guerra de tráfico. Pois o sentimento dessas mães é único e ao mesmo tempo compartilhado por toda. Apenas elas poderiam descrevê-lo, mas Carvalho conseguiu dar ao menos um vislumbre do que são essas agruras maternas.

Mas o que marca mesmo o romance é o estranhamento.

Não pela paisagem de São Petersburgo ou por outras que são descritas no livro, mas pelo desajuste das personagens. São pessoas que não se encaixam em sua vida, deslocadas daquilo que elas percebem como ideal, enfrentando as dificuldades de desempenhar um papel que não lhes cabe. São filhos desencaminhados, pais ausentes, famílias fragmentadas que buscam entrar nos eixos, vivências partilhadas e repartidas, tudo isso numa paisagem confusa de um país em eterna reconstrução. Vale a pena.

2 Comentários Mãe é mãe

  1. Laura Fuentes 17 de fevereiro de 2012 at 18:26

    Desde que você postou isto (e olha que faz tempo) fiquei interessada em conhecer esse autor. Acabo agora de ler “Nove noites”, uma pancada. Nele, Bernardo faz uma mistura
    de ficção e realidade sobre a história de um etonologo que veio ao Brasil estudar uma tribo específica de indios e acabou se suicidando próximo da aldeia. Um show de leitura, tanto é que foi bastante premiado.

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