Uma questão de humildade?

Acredito que a maioria dos tradutores (senão todos) já passaram pela seguinte situação: ver seu texto ligeiramente ou mesmo muito alterado por um revisor. Pela editora, agência ou cliente, pois muitas vezes os profissionais de revisão e preparação são indivíduos sem nome ou rosto que deixam a marca naquele texto que você suou para produzir. Trocou aquele termo, aquela expressão de um jeito que, a primeira vista, você torce o nariz, pois não foi aquilo que você escreveu. Às vezes demora um pouco até admitir que, bem, ficou bom. Sim, ficou melhor. Ou, se não acha que ficou melhor, ao menos há uma fundamentação para a mudança.

E você ainda assim fica puto(a) da cara com aquela alteração.

E muitas vezes fica puto(a) à toa.

Texto é igual filho, você cria para o mundo. Tudo bem, tem revisor que exagera e mete a mão como se não houvesse amanhã, contestando tudo e mais um pouco, inclusive aquilo em que ele não tem razão nenhuma. Muitas vezes é falta de experiência e com certeza o editor pega o problema antes de o tradutor ter o desgosto de ver sua obra desfigurada, padronizada. Quando comecei, eu mesmo passei por essa experiência, mudar o texto de um cara muito fera e tomar um puxão de orelha da chefe. Essa foi a primeira vez que senti como o texto do outro é importante… mas não intocável.

Há uma tendência de padronização em muitas áreas, comentei sobre isso num outro post, uma espécie de tradutês, o português traduzido. Outras vezes, palmas para o revisor (aqui digo revisor, mas pode-se ler também preparador, editor e quem mais mexer no texto antes do lançamento ou da entrega do texto), o texto ficou melhor, mais redondo do que quando saiu das minhas mãos. E agora, eu sou incompetente?

Não, a primeira vista não. Aqueles profissionais que vieram depois de você têm outro olhar, tem a distância necessária para encontrar o que você, por distração, cansaço ou deslize (oi, você não é infalível) deixou passar. Ou para dar uma solução melhor para aquela ótima estrutura que você está acostumado a usar. Isso não diminui o tanto que você se empenhou, seu conhecimento e sua busca contínua em melhorar, seu talento e a sua profissão. Você é o tradutor, o responsável pela ponte cultural e tudo mais que não preciso repetir aqui.

Por isso, da próxima vez em que você estiver preparando um vodu para aquele que mudou seu texto, pense bem: esse trabalho “em equipe” não gerou um texto melhor? Este não é o objetivo final, um bom texto para fazer o leitor feliz? Não seria isso uma questão de exercer um pouco da tão esquecida humildade?

[Nota mental: vou tomar porrada por conta deste texto, vai vendo…]

16 Comentários Uma questão de humildade?

  1. Val Ivonica 16 de março de 2011 at 10:20

    Acho que existem pelo menos duas situações possíveis, Petê:

    1) o texto precisava mesmo de alguns toques, poucos ou muitos, pra ficar melhor. Tenho a sorte de geralmente trabalhar com alguns revisores ótimos, que fazem o “ajuste fino” do texto e deixam redondinho e polido, mais fluente, melhor de ler. Aprendo muito com isso e faço questão de incorporar as alterações à TM, porque realmente valem a pena.

    2) o texto estava bom, mas além das alterações de que falei ali em cima o revisor, pra “mostrar trabalho”, resolve trocar seis por meia dúzia ou, pior, insere erros que não existiam. Nesses casos eu reclamo, contesto, mas quase sempre o desgaste é grande – e a perda de tempo também.

    Mas você tem toda razão, tradutor não pode bancar a prima-dona. Ninguém é perfeito nem infalível, e praticamente todo texto pode melhorar um tiquinho mais na mão de um bom revisor.

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    1. Petê Rissatti 17 de março de 2011 at 10:48

      Val,
      É disso mesmo que falo. Essa situação precisava mesmo acabar, essa suposta rixa existente entre tradutor e preparador/revisor. Devia se tornar um trabalho em equipe, juntos para fazer um texto cada vez melhor. Seria tão mais gostoso, né?
      Beijo e obrigado pela visita!

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  2. Cláudia Mello Belhassof 16 de março de 2011 at 10:46

    Já falei no Twitter, mas repito aqui: estamos em sintonia. O Tradcast de hoje falará sobre a relação entre tradutores e revisores. 🙂

    Beijos, querido! Adorei o texto!

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    1. Petê Rissatti 17 de março de 2011 at 09:35

      Cois’didoido essa sintonia. Acabei de ouvir o TradCast e amei, amei. Beijo.

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  3. Lorena Leandro 16 de março de 2011 at 13:17

    Adorei, Petê!

    Concordo com você, principalmente na questão do tradutor não ser infalível e de o revisor ter a vantagem de ter o distanciamento necessário para arredondar nossa tradução.

    Claro que, em muitas situações, os tradutores se veem numa saia justa. Uma mudança para pior e o nosso nome logo abaixo, nos créditos, não é nada agradável. Mas já sabemos que são ossos do ofício, certo?

    Beijos (e que bom que voltou a escrever!)

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    1. Petê Rissatti 17 de março de 2011 at 09:37

      Sim, Lorena, voltei com força total. Espero que a força dure. Obrigado pela visita e um beijo.

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  4. ana rüsche 17 de março de 2011 at 09:29

    oi, petê!

    acabei de ler um post sobre design de capas de livro que tem a ver:

    “Acredito que uma boa capa de livro é aquela que consiga ser considerada como boa por todos aqueles que estão envolvidos no projeto. Ou seja, o designer, o autor (quando ainda vivo), o editor e os leitores. O projeto de uma capa envolve muitas pessoas e sua aprovação e resultado não depende apenas do designer.(…) O design é um trabalho fundamentalmente em equipe”.

    acho que isso tudo tem que ser harmonizado. o melhor, pelo menos no meu caso, é trabalhar com um revisor de confiança, aquelas pessoas que entendem o que vc lê e que dão os toques fundamentais. que não deixam a gente passar vergonha com os deslizes. enfim, tudo isso.

    um beijo

    Responder
    1. Petê Rissatti 17 de março de 2011 at 10:51

      Boa, Aninha. Confiança e boa-fé são fundamentais quando se trata desse trabalho em equipe. Beijo grande!

      Responder
  5. denise bottmann 17 de março de 2011 at 10:19

    olá, petê, concordo! até mais que uma questão de humildade, considero uma questão de bom senso.

    e, a meu ver, seria urgente que essa prática de um trabalho em equipe, com feedback, diálogo e mútuo acordo, se generalizasse entre as editoras.

    bom vê-lo de volta!
    abraço
    denise

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  6. Daniel Lopes 18 de março de 2011 at 09:34

    Oi Petê. Passei pra conhecer e gostei bstante. “Texto é igual filho, você cria para o mundo.” Pior que é, mas feito qualquer pai, dói pra caramba quando eles começam a andar sozinho e não precisam mais da gente.
    Abração,
    Daniel Lopes

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  7. Daniel Estill 22 de março de 2011 at 16:18

    Petê,
    Só acho que as editoras poderiam ter o hábito gentil e respeitoso de, antes de mandar imprimir, enviar o arquivo com as marcas de revisão ou mesmo as provas revisadas para o tradutor. E isso não só no caso dos tradutores experientes, mas dos novatos também. Além de a gente ainda ter a chance de defender algumas de nossas soluções das alterações pela revisão, também é uma oportunidade de aprender e buscar melhorar o texto. Até por que o nominho que sai em destaque debaixo do nome do autor é o do tradutor. A gente, com uma boa dose de humildade, deveria ter a palavra final. Fora isso, o preparador/editor mereciam um pouco mais de destaque, até para serem igualmente responsabilizados pelo resultado final. Na prática, quando o leitor fala: “essa tradução está ótima” ou “essa tradução está horrível”, sabemos que está elogiando/criticando diretamente o tradutor, preparadores/editores/revisores vão por tabela.

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    1. Petê Rissatti 22 de março de 2011 at 23:24

      Eu concordo com você Daniel. Sempre peço um feedback das editoras. Deveríamos receber as revisões para uma olhada rápida. Teríamos que ter esse tempo, “contabilizá-lo” na hora da produção, mas valeria a pena. Abraço e obrigado pela visita.

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  8. Laura Fuentes 25 de março de 2011 at 16:24

    Concordo com você, todas essas etapas deveriam ser consideradas como um trabalho de equipe, afinal o objetivo é o mesmo. Como preparadora, procuro manter o máximo possível o texto do tradutor, mas tem hora que é preciso mexer um pouco prá dar melhor leitura, mais sonoridade. Mas duvido que mostrem aos tradutores o que fiz antes de mandar o texto para a revisão. O que é uma pena.

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    1. Petê Rissatti 25 de março de 2011 at 16:52

      É isso aí, com a palavra, uma preparadora de pena cheia de ideias ótimas!

      Responder

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