Sob lentes espessas

Enxergo pouco. Ponto.

Sob lentes espessas menos se enxerga sob a névoa cinza de São Paulo. Tudo traz um quê de turvo, desde as janelas sujas de fuligem até os sentimentos. São tantas luzes que cegam os passantes, os pedintes, os perdidos, tantos flashes e faróis que mal iluminam, mas incomodam na sua velocidade lancinante, no seu desespero insano. Perdi as contas de quanto me desencontrei nessa cidade-monstro, nesse Moloch que engole os homens nas sobras de suas esquinas sujas, de seus muros e de seus viadutos, dentro de carros e ônibus, nas cavernas dos metrôs e nas linhas dos trens.
(…)
Tateio corpos em lugares mal iluminados, com estrobos e luzes coloridas, mal sei o que faço ali, danço, acompanhando o que ouço, porém sem rumo, sem fim. Olhos incidiosos percorrem meu rosto, quem sabe à procura daquilo que tanto almejo, mas são olhos que escondem seus sentimentos, mascaram suas intenções em malícia ou desprezo. Quem não quer carinho, quem não deseja um afago, um beijo demorado, um abraço quente e tranqüilizador?
(…)
A luz do sol ofusca o restante da minha esperança. Apesar de todos os beijos e carícias, saio tão sozinho quanto entrei dessa roda-viva paulistana. Em busca daquele alguém, daqueles olhos que, mesmo sob lentes espessas verão o quanto desejo fazer alguém feliz.

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